Saiu no NP

Com técnico esculhambado e atacante endiabrado, Brasil é tetra!

"Nem interessa se é feriado ou não. O Brasil parou pra festejar a vitória da seleção e partiu no maior carnaval." Com essa chamada, na edição de 18 de junho de 1994, o jornal "Notícias Populares" abriu a cobertura da conquista do tetracampeonato na Copa do Mundo nos EUA.

O "Saiu no NP" de hoje relembra a vitória do Brasil diante da seleção da Itália em Los Angeles, cidade que abrigou a primeira final da história dos Mundiais disputada nos pênaltis.

O feito significou a quebra de um jejum de 24 anos sem títulos do Brasil em Copas e fez explodir um verdadeiro "carnaval fora de hora" no país, como frisou o "NP".

O tal carnaval improvisado vem em meio à notícia dada pelo diário de que o então presidente da República, Itamar Franco, havia "liberado geral". Na ocasião, o chefe do Executivo decretara que o funcionalismo público federal só iria "trampar depois do almoço".

O jornal publicou que a "moleza" já havia começado no dia anterior, no domingo, quando na avenida Paulista, em São Paulo, o "povão delirava com a seleça".
O "NP" informara que a festa, "no embalo da cerveja e da cachaça", não teria hora para terminar.

A alegria da torcida veio após um jogo eletrizante com a seleção italiana, que perdeu nos pênaltis depois de uma partida sem gols no tempo regulamentar e na prorrogação. O "Notícias Populares" conferiu a final com um enviado especial, o jornalista Paulo César Martin.
Após uma campanha irregular nas eliminatórias, o time do técnico Carlos Alberto Parreira tinha partido desacreditado para os EUA, que nunca havia sediado o evento da Fifa.


Na primeira fase, a "seleça", como foi apelidada pelo "Notícias Populares", venceu seus dois primeiros adversários, Rússia (2 a 0) e Camarões (3 a 0). O terceiro combate foi contra a Suécia, um dos destaques do Mundial. Já classificado, o empate em 1 a 1 com os suecos foi o suficiente para mandar o Brasil para as oitavas.
No mata-mata, o primeiro desafio do Brasil foi passar pelos EUA. Após um jogo duro contra os donos da casa, a equipe brasileira ganhou o jogo por 1 a 0, gol do "baixinho" Romário.

Nas quartas de final, os holandeses. Em jogo épico, a seleção, que vencia por dois gols de diferença, permitiu o empate da Holanda. O gol salvador foi de falta, cobrada pelo lateral esquerdo Branco, chamado de "gorducho" pelo "NP". Classificado para as semifinais, de novo contra a Suécia, Romário deu o passaporte para o time disputar uma final de Copa do Mundo.

No estádio Rose Bowl, em Los Angeles, a equipe de Parreira encarou a tradicional Itália, cujo destaque era o meia Roberto Baggio. Ao descrever a finalíssima, o "NP" lembrou o "sufoco" dos 120 minutos sem gols. Com uma disputa tensa, mas sem grandes chances de gol, a partida selou o destino de Roberto Baggio e do criticado goleiro Taffarel, o Taffa, segundo o "NP".

Nas cobranças, Pagliuca levou a melhor com o zagueiro Márcio Santos, que errou o chute. Adiante, Taffa defendeu a cobrança do atacante Massaro. Sua defesa mereceu destaque no jornal, que, em seu especial da Copa, cravou: "Taffarel vira o herói da final". Baresi, da Itália, já havia desperdiçado a primeira penalidade enquanto o Brasil vinha obtendo sucesso depois do erro de Márcio Santos. Faltava então a última chance da Itália para conquistar o tetra. "Baggio chutou por cima o pênalti que nos deu o título. Nem Parreira com toda sua teimosia impediu a seleção de ser campeã. É festa galera!", informou o jornal. O carnaval fora de hora começou quando o maior craque italiano dos últimos tempos bateu por cima do gol brasileiro.

A edição especial do dia 18 de julho, com 13 páginas dedicadas à conquista - mais pôster duplo colorido dos tetracampeões-, relembrou as duas décadas em que a seleção passou em branco. "Acabou o tabu" foi uma das chamadas internas do jornal, que afirmou que, finalmente, a "zica" havia saído. Ao ganhar a disputa nos pênaltis, o Brasil exorcizava o fantasma da Copa do México, de 1986, quando caiu diante da França nos pênaltis, ainda nas quartas de final, frisou o "NP".

Nesta mesma edição, o jornal listou o retrospecto negativo da seleção nas Copas anteriores, cuja responsabilidade dos sucessivos fracassos atribuiu aos técnicos. A seção de Esportes recordou que em 1990, na Itália, a "seleça" sucumbiu diante da rival Argentina. Para o "NP", Lazaroni, treinador do time na ocasião, "transformou o futebol brasileiro em palhaçada e o futebol arte de Maradona sepultou as ideias imbecis" do comandante.

Apesar da conquista inédita, o jornal não poupou críticas a Carlos Alberto Parreira, o "técnico mais sortudo do mundo" por ter em seu elenco um jogador como Romário, o "artilheiro-nanico".

A publicação afirmou que ele fora o técnico "mais esculhambado" pela torcida antes da competição, mas, de repente, virou "herói nacional" ao trazer o caneco. Nas internas, o periódico destacou que "Parreira ganhou o Mundial fazendo a seleção jogar como um time do interior que vem buscar o empate na capital. Deu certo. Parreira jogou com o regulamento na mão e teve a sorte de contar com o endiabrado Romário".

Crédito: Folhapress
"Notícias Populares noticiou que a conquista do tetra, nos EUA, foi uma homenagem ao piloto Ayrton Senna"

Mas nem tudo era crítica, afinal, os 24 anos na fila sem títulos tinham ficado para trás. O país finalmente comemorava um êxito vindo do mundo esportivo, chocado com a morte de Ayrton Senna dois meses antes. A memória do piloto foi destaque na edição comemorativa do tetra.

Enquanto festejavam, os jogadores e a comissão técnica homenageavam Senna. Com fotos, faixas, frases e declarações dos atletas da seleção, o jornal anunciou: "Brasil ganha o tetra e faz festa pro Senna". Assim, a memória de Senna se misturou às celebrações do título e à reverência do grupo para com o ex-piloto. Para Viola, então atacante do time, o tricampeão de F-1 tinha sido a inspiração para o quarto troféu do país no Mundial. "O Brasil está triste desde a morte do Senna, espero que a gente consiga mudar isso um pouco", declarou o atacante Romário, que também homenageou o campeão das pistas.

Enquanto isso, no Brasil, os torcedores reunidos no Anhangabaú, região central de São Paulo, festejavam a conquista após terem acompanhado a transmissão pela TV. Na segunda-feira, o "NP" noticiou que a multidão no Anhangabaú atingira recorde de lotação, com cerca de 75 mil pessoas. Embalado pelo som do grupo de pagode "Só pra Contrariar", o "Notícias Populares" lembrou que muitos dos que engrossavam a "galera" tinham menos de 24 anos e, portanto, jamais tinham visto a seleção ser campeã mundial.

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