Saiu no NP

Caça ao Boca de Traíra mobiliza polícia de dois Estados

Em fevereiro de 1970, a equipe do "Notícias Populares" recebeu uma surpreendente notícia: um dos criminosos mais temidos de São Paulo, caçado pelo Esquadrão da Morte e autor de dezenas de assassinatos, estava vivo e atuante em Minas Gerais.

No dia 10 daquele mês o jornal contava que João Alves da Silva, o Boca de Traíra, fora preso pela polícia de Varginha (MG) em dezembro do ano anterior pela tentativa de homicídio contra um policial que tentava impedir que o criminoso matasse outro homem. Mas Boca de Traíra usava um nome falso e não foi imediatamente reconhecido como o bandido de alta periculosidade que era procurado em São Paulo por seus desmandos em São Miguel Paulista e outros bairros da zona leste da cidade.

Hábil em enganar a polícia, Boca subornou um dos carcereiros e fugiu da cadeia. Pouco antes, fora reconhecido por outro detento e a notícia chegou voando à polícia paulistana e à redação do "NP". A caça ao criminoso recomeçava e seria o capítulo final de uma saga de quase três anos de manchetes.

Crédito: 26.fev.1970 - Folhapress
O criminoso João Alves da Silva era conhecido como Boca de Traíra pela polícia e pelos moradores de São Miguel Paulista

A primeira notícia sobre Boca de Traíra saiu no jornal em 21 de abril de 1968, sob o título "Bandido espalha terror em São Miguel Paulista". Boca já aterrorizava o distrito há mais de dois anos, realizando assaltos a mão armada, roubos a estabelecimentos comerciais e assassinatos.

No dia 7 de maio de 1968, os leitores foram informados de que o bandido dera cabo de mais uma vítima durante assalto a um bar na estrada de São Miguel. Desta vez o morto era um ex-guarda-civil que tentou ser mais esperto do que Boca e seu comparsa Belchior Alves, o Brechó, e reagiu. Mas a valentia só lhe rendeu um tiro no peito.

Menos de uma semana depois, Boca e Brechó atacavam outro bar na região. De novo, alguém tentou reagir e levou bala. O guarda particular do local, apesar de ter recebido um tiro no peito, sobreviveu. Mas não conseguiu impedir que todo o dinheiro disponível no caixa do estabelecimento e no bolso dos clientes fosse surrupiado. A esta altura, Boca de Traíra já era o criminoso mais procurado na zona leste da capital.

O delegado de São Miguel Paulista, no entanto, alegava não ter recursos suficientes para empreender uma caçada, e eventualmente um cerco, ao bandido e sua gangue. Diante do apelo desesperado dos moradores, recorreu à Rádio Patrulha de São Paulo, que na época contava com os métodos considerados truculentos do delegado Sérgio Paranhos Fleury.

E foi Fleury o responsável pela primeira detenção de Boca de Traíra, após um cerco de mais de quatro horas ao "mocó" da gangue na Ponte Rasa (zona leste), em 17 de maio de 1968, durante o qual o "Notícias Populares" garante que foram disparados mais de 2.500 tiros.

Dezoito viaturas foram deslocadas para a Ponte Rasa e mais de 50 homens se posicionaram no entorno da casa pouco depois do amanhecer. Dois agentes conseguiram entrar na residência e de lá saíram com Lincoln Preto, um dos membros da gangue. Os demais resistiam com unhas, dentes e balas. Por volta das 10h, ao tentar escapar pelo forro do teto, Brechó foi fuzilado pelos policiais e morreu a caminho do hospital.

Finalmente, quando a munição acabou, Boca de Traíra se viu obrigado a entregar-se. Segundo reportagem do dia 18 de maio, o próprio Fleury foi buscá-lo na porta da residência. Lá dentro os policiais encontraram três amantes dos criminosos, que foram presas e levadas para a delegacia de São Miguel, juntamente com Lincoln, Boca e mais dois integrantes do bando que haviam sido capturados em outras localidades.

Crédito: 17.mai.1968 - Acervo UH/Folhapress
Policiais de São Miguel e da Rádio Patrulha entrincheirados durante o cerco ao "mocó" do criminoso em maio de 68

O martírio dos moradores de São Miguel Paulista parecia ter chegado ao fim. Mas, para surpresa geral, durante uma transferência de detentos em 1º de julho, Boca de Traíra conseguiu fugir das dependências do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), com as mãos ainda algemadas. O criminoso não perdeu tempo e voltou a assaltar em regiões próximas a Itaquera e Artur Alvim.

Denúncias falsas sobre o paradeiro de Boca de Traíra pipocaram nos dias subsequentes, servindo apenas para despistar a polícia e o Esquadrão da Morte, grupo de policiais que anonimamente caçava e matava criminosos numa operação de "limpeza" da cidade. Em 18 de julho, o "NP" contava que a algema que Boca levara consigo tinha sido devolvida à delegacia de São Miguel Paulista, junto com uma carta em que, supostamente, o bandido revelava o nome do agente que o ajudou a escapar mediante suborno.

Em 31 de julho de 1968, o jornal trouxe a última notícia daquele ano sobre Boca de Traíra. Após novo assalto, desta vez a um operário que voltava para casa em Itaquera, desapareceu e só deixou para trás especulações sobre seu esconderijo. Todos acreditavam, ou queriam acreditar, que fugira para outro Estado ou que virara "presunto" nas mãos do Esquadrão.

Boca de Traíra, porém, ressurgiu em janeiro de 1969 fazendo das suas em Tremembé (SP). A polícia se pôs em alerta e, no dia 28, o "Notícias Populares" anunciava que ouvira do próprio "relações públicas" do Esquadrão da Morte que o criminoso tinha sido executado no km 72 da via Anhanguera. Como nenhum corpo foi encontrado, o jornal assumiu que o cadáver fora queimado.

Coube a moradores de São Miguel Paulista desmentir a história: no dia seguinte à notícia da morte de Boca, alguns populares foram à delegacia do distrito garantir que reconheceram João Alves da Silva perambulando pela região.

Enquanto o Esquadrão engolia a custo a humilhação, Boca conseguiu escapulir para as cidades do Vale do Paraíba. Com alguns comparsas novos, entre eles um garoto apelidado de Flechinha, bolou um assalto a um motorista de táxi em Caçapava (SP), que resultou na morte do alvo. Mas, numa discussão sobre a divisão do butim, Boca baleou Flechinha, que foi socorrido em Taubaté (SP) e posteriormente interrogado por um delegado local.

Foi então que, da boca do menino, a polícia obteve a crucial informação de que o criminoso rumava para Varginha, em Minas Gerais. As peripécias de Boca de Traíra estavam próximas do fim, já que ele mesmo fez questão de se incriminar: baleou o policial do começo desta história, foi preso e reconhecido na cadeia. Com as pontas do mistério unidas, as polícias de São Paulo, Taubaté e Varginha saíram juntas à procura de Boca depois da fuga da cadeia mineira.

A saga de Boca de Traíra foi recontada pelo "NP" em extensa matéria do dia 12 de fevereiro de 1970, quando se anunciava que ele fora novamente capturado. Segundo depoimento do próprio bandido, depois de fugir da cadeia de Varginha, foi a uma lanchonete num posto de gasolina tomar um lanche. Lá, foi reconhecido por um subdelegado que, à paisana, ofereceu-lhe uma carona para Belo Horizonte no carro de uns amigos.


O veículo, porém, era uma viatura da Polícia Rodoviária Federal. Sem saber que tinha sido reconhecido, Boca de Traíra aceitou inocentemente a ajuda de seus inimigos. Recebeu voz de prisão e foi em cana pela terceira e última vez. Foi levado à penitenciária de Tremembé e instalado em uma solitária, já que, além de perigoso, havia contraído hepatite A, que é infecciosa.

Numa tentativa de entender a origem de tanta audácia, a equipe do "NP" foi atrás da família de Boca no interior paulista. Após longa conversa com a mãe e as irmãs do detento, o jornal publicou uma biografia no dia 14 de fevereiro. Contava-se que, original da Bahia, a família veio a São Paulo após a morte do patriarca. Aqui, vendo todos passarem fome, Boca de Traíra ainda menino começou a roubar comida. Depois, envolveu-se com o tráfico de maconha e logo se enredou na criminalidade da metrópole.

Também foi revelado que o apelido Boca de Traíra se deve à semelhança fisionômica entre o personagem e o peixe, e foi atribuído a João pelos amiguinhos na infância. A alcunha sobreviveu até a vida adulta, bem como a compaixão da mãe, Clarinda, que chegou a enviar uma carta ao então Presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, pedindo sua ajuda para preservar a vida de João na cadeia, onde ainda podia ser alvo do Esquadrão da Morte.

O criminoso ainda tentou fugir: simulou um suicídio na cela em Tremembé, e até conseguiu que um comparsa falsificasse um ofício judicial demandando sua transferência da prisão ao fórum de São José dos Campos (SP), ocasião em que provavelmente seria resgatado pelos amigos. Não funcionou, e, depois da notícia sobre o ofício falso em 23 de março de 1977, o "Notícias Populares" não voltou mais ao assunto.

Se o Esquadrão se deu ao trabalho de ceifar Boca de Traíra atrás das grades ou se ele cumpriu tranquilamente sua pena, os leitores nunca ficaram sabendo. Hoje, o personagem só pode ser encontrado em outro tipo de confinamento: o dos arquivos empoeirados e cheios de histórias do "Notícias Populares".

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