Saiu no NP

Novembro sangrento

A morte na mídia é um tema delicado e, ao mesmo tempo, objeto de fascínio do público.

O "Notícias Populares" conseguiu criar cumplicidade com seus leitores com uma linguagem editorial de absoluta transparência e fidelidade ao relatar os crimes. Mesmo com os comentários de antigamente de que, se fosse espremido, saía sangue, o jornal teve público cativo desde sua criação.

Crédito: Folhapress
O delegado Ferreira de Castro (à dir.), recebe de repórter do 'Notícias Populares' caderneta relacionada a crime no Rio

Os crimes e assuntos policiais passaram a figurar de forma escancarada na capa do "Notícias Populares" em 1966, mais precisamente em novembro, quando em 21 dias do mês o jornal publicou matérias referentes à morte, sendo 10 delas manchetes da capa, seja como consequência de crises de relacionamento entre casais, namorados e amantes, seja em roteiros que envolviam amor, honra, traição, loucura e ciúmes.

A série ganhou força no dia 5 de novembro, quando, sob o título "Caçado em São Paulo chileno que matou esposa a pancadas", o jornal contou a história do chileno Miguel Batista, que, desconfiado que era vítima de traição, matou a esposa Carmen Ballejo a socos e pontapés no hotel Mem de Sá, na Guanabara, onde estavam hospedados. Ela foi encontrada nua, e o suposto amante acabou preso, enquanto Miguel fugiu.

Neste crime, a cobertura do "NP" foi além de relatar os fatos. Isso porque um dos repórteres policiais do jornal entregou para o delegado de uma caderneta com nomes e endereços achada durante a cobertura do caso.

Depois, no dia 9 de novembro, o jornal entrou em uma seara ainda delicada para a imprensa: suicídios. Com a manchete "Linda mulher trai amante e suicida-se!", contou o trágico fim da professora Marili Monteiro, em um apartamento na rua Paiçandu, no Rio de Janeiro. Após ver frustrada a tentativa de reconquistar o homem que amava, ela vedou portas e janelas com panos velhos e, antes de abrir os bicos de gás da cozinha, vestiu-se com uma fina camisola, maquiou-se, colocou joias, bebeu uísque e depois esperou a morte deitada em seu sofá.

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Retrato de Edson Gonçalves da Silva, que matou mulher e vizinha com porrete de ferro, publicado na capa do 'NP'

Seja no Rio, seja em São Paulo ou qualquer outro canto do país, os crimes chocavam e atraíam a atenção dos leitores, por retratar a vida cotidiana. A lista incluiu crimes de marido que acabou com triângulo amoroso ("Fuzilou a esposa e o amante", no dia 10), de desconfiado que tirou a vida da esposa e da vizinha ("Massacrou mulher e vizinha a marretada", no dia 11) até assassinas (como "Fuzilou o amigo que lhe pedia clemência", no dia 12).

Os relatos davam conta da cena do crime, da motivação do autor e também das consequências dos casos, como no caso do dia 11. "Na manhã de ontem, houve acirrada discussão entre o casal. Magnólia [Feitosa], ameaçada de morte pelo marido, passou a gritar e atraiu a atenção de Iolanda [Maria de Assis], que se encontrava próxima de um poço e, com os gritos, rumou para o barraco do casal [em São Vicente (SP)]. Como um verdadeiro louco, Edson [Gonçalves da Silva], com uma marreta de ferro que pesa mais de dois quilos, começou a massacrar a esposa, que não havia ainda se levantado da cama... Abandonando, Edson perseguiu a vizinha e a alcançou poucos metros depois e, com a marreta, começando a vibrá-la contra a cabeça e o corpo de Iolanda, massacrando-a..."


Também trouxe relatos dos autores do crime, como "Dei-lhe apenas dois tiros. Somente não descarreguei a arma porque ele, na agonia da morte, implorava misericórdia". A frase foi proferida por Noêmia Prado Dechen, após ter fuzilado o amante Sebastião José Encarnação, com quem vivia há seis anos no bairro do Ipiranga, em Mogi das Cruzes (SP).

Outros casos chamaram a atenção pela dramaticidade, como em 14 de novembro ("Fuzilou a mulher na frente de três filhos"), quando o motorista Altamirando Pereira de Carvalho, desconfiado de traição, tirou a vida da mulher, Nadir de Carvalho, com três tiros, e depois se matou, tudo diante dos filhos.

As mazelas populares chamavam tanto a atenção que em determinado ponto o "NP" nem precisou mais noticiar uma morte, como em "Marido dá 2 tiros no Barnabé Don Juan". Nesse caso, publicado em 18 de novembro, o tecelão Divino José Teodoro, que morava com cinco famílias no bairro do Parque Peruche, em São Paulo, desferiu sete tiros no vizinho, o coletor Argemiro Domingos, que vivia cortejando sua esposa. Mesmo sem ter matado o rival, que acabou hospitalizou apenas duas balas o acertaram, Divino se entregou à polícia.

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Capa do 'NP' de 14 novembro de 1966, em que assuntos policiais e envolvendo morte dominam as manchetes

Como não poderia faltar, o primeiro mês sangrento do "NP" contou com crimes que exigiam investigação e registraram reviravoltas. A matéria "Brotinho fuzilou namorado casado!" foi publicada no dia 25 após ser apurado que Marli Alves Cordeiro assassinara o namorado Gilberto do Santos Aguiar dentro de um carro no Rio de Janeiro. Os primeiros relatos da moça contavam que o rapaz havia se suicidado, mas a polícia concluiu que fora ela que, após descobrir que Gilberto era casado, cometera o crime e simulara o suicídio.

Depois de "Arrastou esposa do baile pelos cabelos", de 25 de novembro, em que contou a história de um soldado da Polícia Militar que matou a esposa após sucessivos avisos para que deixasse de frequentar bailes sozinha, o "NP" encerrou o mês sangrento no dia 29, quando publicou "Conquistador morto tinha dois amores!".

O caso derradeiro dava conta do fim trágico de Antônio Siqueira, motorista de praça que recebeu um tiro no coração por causa das amantes Terezinha Guimarães e Marilene Góis, na Vila Cachoeirinha, em São Paulo. Nas investigações, o suspeito pelo crime seria Nilton Barros, companheiro de quarto do motorista e também amigo de uma das amantes. As mulheres não se entendiam mais e não queriam mais dividir o amor de Antônio.

Esses casos foram somente o estopim diante de tantos outros que foram relatados ao longo da história do "Notícias Populares". Foi muito sangue derramado e, independentemente da cobertura dada pelo jornal, a morte é tema de interesse comum, não importando classe econômica, social ou política.

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