Saiu no NP

Síndrome da Sereia afeta crianças no Norte e no Nordeste

Casos reais e doenças estranhas despertaram a curiosidade de leitores do "Notícias Populares", que se amontoavam à frente de bancas de jornais para ler suas manchetes.

O nascimento do bebê-sereia, noticiado no dia 27 de julho de 1990, foi um dos exemplos. A história da criança que veio ao mundo em 23 de julho daquele ano sem os órgãos genitais, os rins, a bexiga, o ânus e com os pezinhos grudados, dando a impressão de uma cauda de sereia, rendeu ao "NP" cinco dias de reportagens.

Crédito: Folhapress
Em 28 de julho de 90, 'NP' informa que o bebê, após a fuga do pai assustado, fora colocado em um banho para ictiose

Paulo Vilela, pediatra e cirurgião do Hospital da Restauração onde nascera o bebê, no Recife (PE), diagnosticou o caso como sirenomielia ou sintodia, um fenômeno de nascença conhecido como Síndrome da Sereia. O médico arriscou uma explicação na época: "Pode ter havido acidente vascular durante a gravidez, e a mãe não realizou ultrassonografia na gestação".

Essa fora a segunda tentativa de Edilza Jerônimo da Silva, 17, que, apesar da pouca idade, já havia perdido o primeiro filho três dias após o nascimento, em decorrência de anomalia no coração. O seu filhinho-sereia veio ao mundo prematuramente, durante o oitavo mês de gestação. Fruto de um parto normal, a criança tinha 1 kg e media 30 cm.

Devido à aparência do corpo, que, da cintura para baixo, lembrava uma cauda e apresentava o movimento igual a um peixe, o "NP" destacou em 28 de julho: "Bebê-sereia nada em um berço quente". Vilela, então, explicou que o recém-nascido se movimentava muito bem no lugar onde ficariam as duas pernas: "Os joelhos e os ossos são perfeitos. Apenas os pés, unidos, têm oito dedos".

A articulação das perninhas unidas, que davam a impressão de que ele estava nadando, pode ser traduzida na vontade desesperada da criança de mamar, assim como o fato de ela chupar os dedinhos. Isso foi explícito na terceira manchete do "NP" sobre o caso -- "É ordem dos médicos: bebê-sereia proibido de mamar" --, que informou que a alimentação do prematuro estava restrita a soro, devido a não haver condições de ser alimentado de outra forma, já que ele não tinha um canal para soltar o xixi e o cocô.

As enfermeiras que assistiam ao bebê no leito onde vinha sendo mantido ficaram desoladas: "É uma judiação ver um nenê ser impedido de mamar. Mas, infelizmente, a proibição é ordem dos médicos".

Crédito: Folhapress Reprodução de página do 'Notícias Populares' de 27 de julho de 1990, em que infográfico descrevia o bebê-sereia
Reprodução de página do 'Notícias Populares' de 27 de julho de 1990, em que infográfico descrevia o bebê-sereia

O estado de saúde do bebezinho, então, piorou. De acordo com o doutor Vilela, até mesmo cirurgias seriam inúteis para a sobrevida da criança e a machucariam muito. Suas chances de vida se tornaram nulas, e o médico preparou a família para uma possível doação do corpo para exames científicos.
E no dia 30 de julho, sete dias após o nascimento, o jornal trouxe a triste notícia: "Explode coração do bebê-sereia".

A falta de canais para as necessidades fisiológicas provocou um volume grande de gases, o que ocasionou a dificuldade de respiração e a parada do coração do bebê. Após a família autorizar a doação do corpo para que a ciência desvendasse o mistério da criança, o "NP" estampou: "Pais doam corpo do bebê-sereia".

O diretor do Hospital da Restauração, João Alexandre Neto, disse que aquele era o terceiro caso da Síndrome da Sereia registrado no local nos últimos 30 anos. Em 1966, o primeiro bebê-sereia sobreviveu três dias e, em 1985, o segundo caso, apenas sete horas.

Apesar de tudo, bebê-sereia não era uma exclusividade do hospital no Recife. Isso porque, na década de 70, em Icó, no Ceará, outra criança com cabeça de gente e corpo de sereia chegou a viver por algumas horas após o seu nascimento. Uma reportagem do "NP", publicada em 5 de janeiro de 1976, comprovava o fato: "Criancinha nasceu com escamas e rabo de peixe". O assunto, inclusive, abalou a opinião pública da cidade.


O professor Valdeci Gomes de Oliveira, que fizera todos os partos da mãe do recém-nascido, afirmou então que nunca vira um ser tão estranho: "A criança não tinha sexo, mas se movia e fazia contorções de forma diferente daquela que a gente costuma ver em crianças que acabam de nascer".

A notícia correu por todas as cidades vizinhas. Cada cidadão inseria novos e estranhos detalhes à história, despertando pavor e curiosidade. Tal comportamento chegava a ser comum em casos inusitados à época, nos quais a população espalha boatos e evoca lendas.

Foi o que aconteceu também em Belém (PA), onde uma criança nasceu metade homem, metade peixe e logo remeteu todos à lenda do boto, história sobre mulheres que ficavam grávidas sem serem casadas e que teriam sido engravidadas pelo boto.

Por meio do correspondente em Manaus, o "NP", em 14 de junho de 1975, colocou na primeira página: "Médico confirma: boto é o pai do bebê-peixe". A criança veio à luz na maternidade da Santa Casa de Belém, no Pará, porém não sobreviveu muito tempo, pois os seus pulmões tinham formação incompleta.

Crédito: Folhapress
Em 75, 'NP' trouxe imagem que retrataria o bebê de Belém

Os médicos da maternidade, inclusive o legista Renato Chaves, admitiram ser o nascimento anormal produto da ingestão de algum medicamento tranquilizante e deformante, o que fez com que a criança nascesse com uma espécie de ictiose (com escamas).

Já a confissão da parturiente Fernanda Ribeiro de Souza, residente da pequena cidade de Barbacarena, próxima a Belém, foi o que mais intrigou: "Eu vivo sozinha e não tenho ninguém. Numa noite de muita chuva, me apareceu um grande peixe, que tinha todos os jeitos de um homem, e ele me agarrou, mantendo comigo relações. Esse peixe estava rondando minha casa há vários dias".

Após esse relato espantoso, os médicos solicitaram aos pescadores do local que fisgassem um boto, com objetivo de realizarem exames científicos para tentar dar uma explicação ao estranho fenômeno, o de uma criança nascer com rabo de peixe.

Segundo os moradores do rio Amazonas, em suas margens habitadas, o boto é um "peixe sagrado", com todas as características de um ser humano e um diferencial no olhar. Seu maior desejo é deflorar meninas de 15 anos, que não resistem ao seu olhar hipnótico e tentador.

Esses três casos geraram tantos mistérios, comoção e espanto que, seja pela cobertura realizada pelo "NP", seja pela incapacidade de respostas da ciência à época, ou até pela facilidade com que se propagavam lendas, tornaram essas histórias parte do imaginário e da cultura regional.

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