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Eleito Mister África Brasil dá aulas voluntárias para imigrantes em São Paulo e sonha em ser modelo

Guineense, africano mais belo cursou letras e está desempregado

Vensam Iala, tem 29 anos, é da Guiné Bissau
Vensam Iala, tem 29 anos, é da Guiné Bissau - Arquivo Pessoal

Flávia Mantovani
São Paulo

​A paixão pelo futebol e a vontade de estudar trouxeram o guineense Vensam Iala ao Brasil oito anos atrás. Agora, o sonho de ser modelo e a afinidade com a causa da migração o levaram a se inscrever no primeiro concurso Mister África Brasil, realizado no início de dezembro em São Paulo

No evento, que teve desfile e apresentações culturais, Vensam, de 29 anos e 1,86 m de altura, venceu e ganhou a faixa de mais belo imigrante africano do país. Formado em letras, mas atualmente desempregado, ele espera que o concurso traga novas oportunidades para sua vida e sua carreira.

“É muito mais que beleza. É um trabalho voltado para o público imigrante, uma oportunidade de ser porta-voz para irmãos africanos. Por isso quis participar”, afirma.

O professor ensina português voluntariamente na Missão Paz, entidade que acolhe imigrantes em São Paulo. Diz que está adorando a experiência.

“Acho magnífico estar na sala de aula com eles. Mesmo vindo de um país que fala português, quando eu cheguei tive dificuldades. Imagine um africano que não fala o idioma. É fácil para mim me colocar no lugar deles porque sou negro, africano, imigrante. Isso ajuda até na metodologia das aulas”, diz.

 

Vensam deixou a Guiné Bissau em 2010, por um convênio de seu país com o Brasil. Fez o curso na Unesp de Assis, interior de São Paulo.

Ficou surpreso ao ver que em sua sala de 45 alunos, havia apenas cinco negros. “Uma universidade pública deveria ter bastante diversidade. Mas só tive um professor negro durante todo o curso. Achei estranho, no início não me sentia parte daquele espaço”, lembra.

O guineense, que jogava futebol em um time de segunda divisão em seu país, conta que o esporte o ajudou na integração ao novo ambiente. Ele jogou em times amadores de Assis e da Unesp. “Eu já não era mais só o africano na cidade, era um cara que contribuía de alguma forma para a comunidade. Fiz uma família lá, não tenho do que reclamar”, afirma.  

Para Vensam, que participa de algumas atividades ligadas ao movimento negro, o racismo no Brasil é desafiador por não ser muito explícito. “Na época do apartheid na África do Sul, por exemplo, o racismo ao menos era admitido. Aqui se diz que as oportunidades são para todo mundo, mas quando você vai ver, é diferente. É velado”, diz.

Quando terminou seu curso universitário, em 2014, ele retornou para a Guiné, mas não conseguiu emprego. “Lá a dificuldade econômica é muito grande. Acabei voltando para o Brasil”, conta.

Além de ser modelo, o guineense —que no Brasil trabalhou na área administrativa de uma empresa e também como barman— quer ser ator. Ele comemora um papel que conseguiu recentemente em filme da diretora Laís Bodanzky, mas diz que ainda quer juntar dinheiro para fazer um curso e se profissionalizar na área.

Para vencer o Mister África Brasil, ele decidiu se dedicar. Mudou-se de Assis para São Paulo alguns meses antes do concurso e malhou pesado para chegar a “um padrão mais adequado de corpo e beleza”. “Investi para ganhar, pois achei que poderia me abrir as portas para realizar meu sonho.”

Na hora do desfile, porém, diz que ficou nervoso e achou que não ganharia. “Quando falaram meu nome, fiquei muito surpreso. Queria chorar, rir. Foi uma felicidade tremenda.”

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