Tony Goes
Descrição de chapéu mostra de cinema

'Pessoas querem filmes que lembrem que o mundo não é horrível', diz ganhadora do Oscar

Carol Dysinger dirigiu curta 'Aprendendo a Andar de Skate em uma Zona de Guerra'

Imagem do curta “Aprendendo a Andar de Skate em uma Zona de Guerra”, ganhador do Oscar
Imagem do curta “Aprendendo a Andar de Skate em uma Zona de Guerra”, ganhador do Oscar - Divulgação

Desde pequena, Carol Dysinger sonhava em conhecer a Caxemira. Localizada no extremo norte da Índia, com parte de seu território disputado pelo vizinho Paquistão, a região é famosa por seus belos lagos cercados por montanhas altíssimas.

A cineasta americana acabou realizando sua maior façanha profissional ali perto, no Afeganistão. Um país árido e pedregoso, que vive em permanente estado de guerra há mais de 40 anos. Bem diferente da idílica Caxemira dos seus sonhos de infância.

Foi em Cabul, a capital afegã, que Dysinger rodou o mais recente vencedor do Oscar na categoria de documentário em curta-metragem. Depois de concorrer em diversos festivais e ganhar quatro outros prêmios, “Aprendendo a Andar de Skate em Zona de Guerra (Se Você For Menina)” finalmente poderá ser visto no Brasil. O filme será exibido nesta segunda (12), às 20h55, prelo canal pago Lifetime.

“Perdi a conta de quantas vezes estive no Afeganistão”, conta a cineasta, em entrevista por videoconferência. “A primeira foi em 2005. Eu tinha acabado de me divorciar e não tinha filhos. Pensei: por que não? Só estarei arriscando minha própria vida, e a de mais ninguém”.

Ao longo dessas inúmeras viagens, Dysinger fez muitos amigos, mergulhou na cultura local e dirigiu o documentário “Camp Victory, Afghanistan”. Lançado em 2010, o longa registra a retirada de tropas americanas do Afeganistão –um processo que não terminou até hoje, quase 20 anos depois dos EUA invadirem o país em resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001.

Este filme rendeu à diretora um convite do canal Lifetime, que queria algum conteúdo que mostrasse o Afeganistão sob uma perspectiva otimista. “As pessoas querem filmes que mostrem que o mundo não é horrível. Ou melhor, ele até é, mas é possível sobreviver nele e fazer algumas conquistas”, afirma ela.

O assunto logo se impôs. Dysinger decidiu mostrar o trabalho do Skateistan, uma ONG de origem australiana que fundou em Cabul uma escola de skate para meninas –hoje, um autêntico centro educacional, que dá aulas de reforço para garotas que não começaram a estudar na idade certa, ao mesmo tempo em que as ensina a fazer manobras radicais em cima de uma prancha com rodinhas.

Durante 40 minutos, “Aprendendo a Andar de Skate em uma Zona de Guerra” conta a história de algumas dessas pequenas estudantes. Combinando vestimentas tradicionais (inclusive véus sobre as cabeças) com capacetes e joelheiras, elas rodopiam no ar, caem e aprendem a se levantar. Estão tendo aulas de perseverança e autoestima, em uma sociedade que mantém a maioria das mulheres presa em casa.

“Muitas dessas meninas vêm de famílias conservadoras e religiosas”, explica Dysinger. “Mas seus pais querem que elas recebam educação. Não há nada no Islã que proíba uma mulher de estudar”. Se ficou sabendo das filmagens, o Taliban preferiu não interferir. O grupo é o responsável pelo ataque que quase matou Malala Yousafzai, a jovem ativista pela educação feminina, em 2012.

Pergunto se ela teve medo. “Medo e perigo nem sempre andam juntos”, responde Dysinger. “O perigo é uma coleção de circunstâncias. O medo é uma emoção. E você nunca corre mais perigo do que quando está relaxado. É preciso ter um plano de fuga, e a consciência do que pode ter te colocado em risco”.

Também é preciso sorte. Mas isto, Dysinger parece ter. Seu filme sobre essas garotas tão corajosas, que sorriem para a câmera como se não vivessem num dos lugares mais complicados do planeta, venceu o Oscar de sua categoria.

“Eu nunca esperei que fosse ganhar. Só comecei a encarar a possibilidade alguns dias antes, quando “Aprendendo a Andar de Skate...” levou o BAFTA (o equivalente britânico do prêmio da Academia de Hollywood). Subi ao palco do Royal Albert Hall, em Londres, totalmente despreparada, sem ter um discurso na mão. Procurei por um amigo na plateia e dei de cara com o príncipe William, o futuro rei. Foi aí que eu me toquei: “é melhor começar a levar isto a sério”.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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