Tony Goes

Ricky Gervais se despede do Globo de Ouro com agressividade e pouca graça

Comediante apresentou a cerimônia de premiação pela quinta e última vez

Ricky Gervais apresentou Globo de Ouro de 2020
Ricky Gervais apresentou Globo de Ouro de 2020 - Paul Drinkwater/NBCUniversal/Handout/Reuters
São Paulo

Em 2010, Ricky Gervais foi o anfitrião do Gobo de Ouro pela primeira vez. Conhecido pelas séries “The Office” (a versão original, britânica) e “Extras”, o ator surpreendeu Hollywood: fez piadas incorretíssimas, despejou palavrões e insultou metade da plateia.

E foi um sucesso de audiência. Tanto que a rede americana NBC manteve-o no posto nos dois anos seguintes, e ainda o convidou para apresentar a cerimônia de 2016. Um antídoto perfeito à fama de bajulador de celebridades que o Globo de Ouro sempre teve.

Gervais voltou a comandar “a maior festa do ano” neste domingo (5), pela quinta e, como foi largamente anunciado, última vez. Ainda bem. Sua performance de 2020 foi apenas agressiva, com bem pouca graça. O ator parecia estar enfastiado, louco para acabar logo com aquilo.

“Eu não me importo mais. Brincadeira, eu nunca me importei”, disparou ele logo no início. Essa displicência deu o tom do discurso em seguida, com tiradas desagradáveis sobre Judi Dench (que não estava no recinto) e Jeffrey Epstein (o milionário acusado de abuso sexual que se matou na prisão).

Gervais ainda admoestou os futuros vencedores a não se fingirem de santos em seus discursos de agradecimento –afinal, quase todos trabalham para grandes corporações como a Apple ou a Amazon, envolvidas em escândalos que vão da anuência à censura chinesa a denúncias de trabalho escravo.



Mas é claro que a política deu as caras inúmeras vezes durante a noite. Este ano, não havia um grande tema unificador –ao contrário da cerimônia de 2017, marcada por protestos contra o então recém-eleito Donald Trump, ou a de 2018, quando quase todas as atrizes vestiram preto em apoio ao movimento #MeToo. Mas não faltaram diatribes feministas ou menções aos incêndios na Austrália, agravados pelas mudanças climáticas.

Também não faltou emoção. Dois dos melhores momentos da noite vieram de agraciados com troféus honorários, algo que o Oscar cortou de sua transmissão. Ellen De Generes foi engraçadíssima ao agradecer a seu “marido Mark” e aos filhos, coisa que ela nunca teve (a apresentadora, lésbica assumida, é casada há anos com a atriz Portia de Rossi). E Tom Hanks engasgou algumas vezes, mostrando que ele é mesmo o sujeito decente que seus filmes sugerem.

O Globo de Ouro também é famoso pelos discursos incoerentes. O mais estrambólico veio de Joaquin Phoenix, que venceu como melhor ator de filme dramático por “Coringa”. Já Renee Zellweger, premiada como atriz dramática por “Judy – Muito Além do Arco-Íris”, parecia meio sedada. Ambos estouraram o tempo regulamentar e precisaram ser enxotados do palco com música de fundo.

O melhor recado de todos foi dado pelo diretor coreano Bong Joon-Ho, cujo “Parasita” levou o troféu de melhor filme em língua estrangeira. “Quando vocês superarem a barreira de uma polegada das legendas, serão apresentados a tantos filmes incríveis”, disse o cineasta, em referência à aversão do espectador americano ao cinema do resto do mundo.

Ainda veremos várias vezes quase todos os presentes ao Globo de Ouro nos próximos dias. Domingo que vem (13) acontece a entrega dos Critic’s Choice Awards; mais para o fim de janeiro, é a vez dos prêmios do SAG, o sindicato dos atores. A culminação é no dia 9 de fevereiro, com o Oscar. 

Felizmente, Ricky Gervais não estará em nenhuma dessas festas.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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