Tony Goes

Por que 'Dra. Darci', de Tom Cavalcante, incomoda tanto a direita ignorante?

Série está em lista de produções que não deviam ter sido aprovadas

Tom Cavalcante em cena da série "Dra. Darci", da Multishow
Tom Cavalcante em cena da série "Dra. Darci", da Multishow - Divulgação

​Desempregado e cheio de contas atrasadas, o psicanalista Darci se inscreve no concurso de uma rádio, para aconselhar ao vivo os ouvintes de um programa de grande audiência. Ele vence o concurso, mas há um senão: na hora de anunciar o resultado, o locutor se confunde com seu nome – que, no Brasil, serve para homens e mulheres – e o chama de “doutora Darci”.

Para não perder o novo emprego, Darci resolve se vestir de mulher. Sua participação no programa faz o maior sucesso, e ele/ela se torna uma celebridade. Mas até quando conseguirá sustentar a farsa?

Esta é a premissa de “Dra. Darci”, série cômica estrelada por Tom Cavalcante e exibida pelo canal pago Multishow. É uma variante de “Tootsie”, o filme em que Dustin Hoffman fazia um ator que se passava por mulher para conseguir trabalho, além de tantas outras comédias. Até Shakespeare tem peças em que homens se vestem de mulher para arrancar risos da plateia.

“Dra. Darci” já está indo para a segunda temporada. Mas, segundo o documento “O Caos na Cultura”, que está circulando na internet, não deveria “ter sido aprovada”, junto com outros 17 títulos.

A lista é encabeçada por “Me Chama de Bruna”, a série da Fox derivada dos diários de Raquel Pacheco, mais conhecida por Bruna Surfistinha. Foi sua presença lá que deve ter confundido o presidente Jair Bolsonaro e dizer, em um evento na quinta passada (18), que o dinheiro público não poderia servir para financiar filmes “como o da Bruna Surfistinha”.

O filme foi lançado em 2011, levou dois milhões de espectadores aos cinemas e gerou renda, emprego e impostos. A  série de TV, cuja quarta temporada deve estrear no final de 2019, também é um sucesso: além de elevar a audiência do canal, trouxe dividendos para o Brasil, ao ser vendida para diversos países. Inclusive – pasme – a Arábia Saudita.

Mas esses números não interessam ao misterioso Movimento Brasil 2100 Cultura, do qual, segundo reportagem publicada pela Folha no domingo (21), não se encontram registros na internet. Os dois projetos citados deram um retorno espetacular ao dinheiro investido. Mas, segundo o tal documento – que é muito mal diagramado e traz erros de português – eles integram o “ciclo vicioso, desmoralizante, vexatório da cultura brasileira”.

Alguém pode até argumentar que “Bruna”, em suas duas encarnações, tem conteúdo erótico e atenta contra a moral e os bons costumes. Mas, o que dizer então de propostas como “A Amazônia de Margaret Mee”, sobre a artista britânica que lutou pela preservação da floresta? Ou “A Pedra do Sino”, que fala do processo político que levou à abolição da escravatura? Quer dizer então que destruir o meio ambiente e defender a escravidão são pautas da direita?

De uma certa direita ignorante, são mesmo. Porque precisa ser muito tacanho para achar que “Dra. Darci” tem algo de subversivo. A sitcom não defende a causa LGBT, não fala de transexuais, não tem nada de progressista. Só tem um homem vestido de mulher, uma das piadas mais antigas da humanidade.

“O Caos na Cultura” pode ser baixado do site conservador “Encontros Nacionais”. Seu editor Cristian Derosa não revelou o nome dos autores do documento, mas disse à Folha que “o governo tem todo o direito de escolher coisas que considera boas ou ruins”, referindo-se à vontade de Bolsonaro de instituir um “filtro” na Ancine. 

Não, Cristiano, o governo não tem esse direito. A Constituição brasileira afirma expressamente que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição”. 

Além disso, o regulamento interno da Ancine foi elaborado exatamente para o governo de plantão não interferir de maneira ideológica na seleção dos aprovados. Os critérios utilizados são técnicos. Levam em conta o currículo dos proponentes e as perspectivas comerciais dos projetos.

Os presidentes petistas tentaram se intrometer na produção cultural brasileira, e foram rechaçados pelos próprios produtores – que, segundo a direita ignorante, seriam “esquerdistas”. 

Agora é a vez do governo Bolsonaro, que demonstra um desconhecimento das instituições democráticas e um pendor autoritário ainda maiores que os de seus antecessores.

Talvez seja um caso para a dra. Darci analisar.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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