Tony Goes

Depois de Stonewall, os LGBTQ+ invadiram a cultura pop

Até 1969, quase todo mundo era heterossexual no cinema, na música e no teatro

World Pride 2019 em Nova York comemora os 50 anos de Stonewall
World Pride 2019 em Nova York comemora os 50 anos de Stonewall - Reuters/Lucas Jackson

O pianista Liberace foi um dos maiores vendedores de discos das décadas de 1950 e 1960. Seu repertório misturava peças clássicas com sucessos contemporâneos, mas o que realmente chamava a atenção do público era seu visual extravagante. Trajando figurinos com muitos brilhos e paetês, Liberace foi um antecessor óbvio de Elton John.

Também era evidente que ele era gay. Só que isto não era comentado por ninguém. Liberace não se assumiu nem depois de morrer em decorrência da AIDS, em 1987: sua assessoria divulgou que uma dieta malsucedida causara sua morte.

Artistas que viviam sua homossexualidade em segredo eram comuns até bem pouco tempo. Alguns, como o ator Rock Hudson, entravam em casamentos de fachada, só para despistar o público.



Gays, lésbicas e transexuais mal existiam sequer como personagens de ficção. Eram raríssimos no cinema e no teatro até o final da década de 1960. Quando apareciam, eram sempre figuras atormentadas, sem lugar na sociedade.

Aquela década foi marcada, nos Estados Unidos, por três grandes movimentos de libertação: o negro, o feminista e, mais para o finzinho, o homossexual. Os dois primeiros já existiam desde meados do século 19. O terceiro foi uma grande novidade, e seu rápido avanço mudou para sempre a cultura pop.

Os sinais já estavam no ar, mesmo antes do levante de Stonewall. Lá por 1966, os hippies misturavam as características dos gêneros e pregavam a total liberdade sexual. A peça “Os Rapazes da Banda”, de 1968, traçava um retrato realista dos gays da classe média branca. Astros do rock começavam a usar cabelos compridos e alguma maquiagem.

Mas o grande catalizador foi mesmo Stonewall. A revolta dos frequentadores daquele bar em Nova York, contra a polícia que queria prendê-los só pelo fato de serem gays e trans, ganhou as manchetes do mundo inteiro. E, se não escancarou as portas do armário, pelo mostrou que ele existia: até então, a diversidade sexual era praticamente ignorada pela mídia.



Ao longo da década seguinte, cantores como David Bowie e Ney Matogrosso se revelaram bi ou homossexuais. Para os atores, assumir-se era (e ainda é) mais complicado. Mas o assunto foi deixando aos poucos de ser tabu.

Nos anos 1980, uma tragédia aconteceu: a epidemia da AIDS, que custou milhões de vidas no mundo inteiro. Mas esse drama terrível teve uma consequência positiva na cultura. Peças como “As Is” e “The Normal Heart”, ou filmes como “Meu Querido Companheiro” e “Philadelphia”, discutiam abertamente as consequências da doença.

Hoje em dia, a diversidade sexual já faz parte da paisagem. Dá para encher algumas páginas com os nomes dos artistas gays, lésbicas e transexuais, e outras tantas com os dos heterossexuais simpatizantes. Agora o anormal é negar a existência de tamanha diversidade e os direitos deste segmento, que corresponde a, no mínimo, 10% da população.

Nesta sexta-feira, 28 de junho de 2019, celebram-se os 50 anos do levante de Stonewall. O movimento LGBTQ+ provavelmente teria acontecido sem ele, mas o marco é importante. É uma data a ser celebrada até por quem não se encaixa em nenhuma das letras da sigla, que não para de crescer. Porque qualquer opressão não é ruim só para os oprimidos: é ruim para todo mundo.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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