Tony Goes

Além de merecida, vitória de Mumuzinho no Show dos Famosos teve conotação política

Em sua participação no concurso, o cantor só encarnou artistas negros

Cantor Mumuzinho faz homenagem a Dona Ivone Lara
Cantor Mumuzinho faz homenagem a Dona Ivone Lara - Fábio Rocha/Globo

O politicamente correto não tem vez no Show dos Famosos. O quadro do Domingão do Faustão –baseado no formato internacional “Your Face Sounds Familiar”, que teve uma versão no SBT chamada “Esse Artista Sou Eu" –precisa ignorar as barreiras de cor, gênero e estilo musical para funcionar a contento.
 
Brancos viram pretos, homens viram mulheres, cis viram trans e vice-versa. Tem muito blackface, whiteface, faces de todas as cores. Muita peruca e nenhum lugar de fala. Nesta segunda edição pela Globo, a atração mostrou até uma pessoa de estatura normal (Tiago Abravanel) encarnando uma verticalmente desafiada (Nelson Ned, que quando vivo era chamado de anão).
 
A graça do programa é exatamente essa: o artifício, a maquiagem, o faz-de-conta. Ser alguém que não se é –em suma, a essência do teatro. A safra de 2018 estava mais forte que a do ano passado. Mas, lá pelo meio da competição, um concorrente se sobrepôs aos demais: Mumuzinho, um nome ainda em ascensão, apesar dos quase 20 anos de carreira

Cantor de pagode e intérprete de Mussa (o avatar de Mussum) na nova versão de “Os Trapalhões”, o rapaz vem mostrando há algum tempo as muitas facetas de seu talento. Mas sua participação no Show dos Famosos o ergueu para um outro patamar.
 
Mumuzinho tornou-se o favorito depois de uma imitação de Alcione que chegou às raias da perfeição. Arrancou uma inédita nota dez unânime do júri, formado por Miguel Falabella, Cláudia Raia e Boninho. Conseguiria se superar?
 
Conseguiu. Neste domingo (8), na grande final, Mumuzinho recebeu o espírito de Dona Ivone Lara, a lendária sambista carioca, morta em abril passado. Com gestos contidos e perfeito domínio de voz, o cantor e ator levantou a plateia e garantiu a vitória.
 
Foi merecidíssima. E ainda teve uma discreta subversão ao espírito polivalente do formato. Negro que é, Mumuzinho optou por homenagear apenas artistas negros.
 
Só que não dá para acusá-lo de não se arriscar, nem de não sair de sua zona de conforto. Os escolhidos por Mumuzinho incluíram artistas de estilo próximo ao dele, como o sambista Péricles (e, curiosamente, sua pior performance), mas também norte-americanos como Stevie Wonder e Louis Armstrong. Além de duas mulheres, que ele evocou sem resvalar para a caricatura.
 
Vista como um todo, a participação de Mumuzinho no Show dos Famosos é um longo tributo à música negra feita nas Américas. Uma façanha e tanto. 
 
Outro que também passou uma sutil mensagem política foi Silvero Pereira, que terminou em segundo lugar. Homossexual assumido, Silvero encarnou outros artistas gays – Freddie Mercury, Ney Matogrosso – ou ídolos do público LGBT – Cher, Edith Piaf. O único ponto fora da curva foi o hétero Steven Tyler, vocalista da banda Aerosmith -e mesmo assim, longe de ser um ícone da masculinidade.
 
No geral, o Show dos Famosos de 2018 foi mesmo espetacular. Mas não me furto a fazer duas sugestões para o ano que vem. As produções dos números podem ficar um pouco mais simples, sem tantas bailarinas e adereços no palco, que, muitas vezes, ofuscaram o artista em cena. Além disso, Cher, Adele, Madonna, Alcione, Beyoncé e Ney Matogrosso foram imitados nas duas edições do concurso. Sei que é difícil ampliar o leque dos homenageados, mas a sobrevivência do quadro depende de uma maior variedade.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

Final do conteúdo

Últimas Notícias

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem