Tony Goes

Com anos de atraso, finalmente estamos discutindo o racismo no showbiz brasileiro

Durante décadas, o discurso oficial dizia que o Brasil era um paraíso racial

A atriz e cantora Fabiana Cozza
A atriz e cantora Fabiana Cozza - Marcus Leoni-20.abr.2018/Folhapress

Nos últimos dias, duas polêmicas sobre racismo e representatividade agitaram os brasileiros ligados ao que se passa no mundo do entretenimento.

Logo no começo da semana passada, as redes sociais estavam divididas quanto a Fabiana Cozza. Atacada por militantes radicais do movimento negro, a atriz e cantora paulistana abriu mão de interpretar Dona Ivone Lara em um musical. Filha de mãe branca e pai negro, Fabiana não seria escura o suficiente para o papel da sambista.

Comentei aqui no F5 a injustiça que estava sendo cometida contra Fabiana, uma artista com todas as credenciais possíveis para fazer Dona Ivone no teatro -inclusive o aval da família da compositora. E também fui atacado pelos mesmos radicais que acham que o tom da pele é mais importante que o talento.

Mais para o meio da semana, Gaby Amarantos criticou no Twitter ninguém menos que Silvio Santos, o indivíduo mais poderoso da TV brasileira. A cantora simplesmente está farta das piadinhas preconceituosas com que o apresentador costuma brindar negros, homossexuais, gordos e até mulheres bonitas.

Até pouco tempo atrás, seria inimaginável que um artista que precisa da TV para alavancar sua carreira reclamasse de alguém como Silvio. Mas Gaby quebrou essa barreira, e foi atacada por isso. Eu a defendi aqui no F5, e também levei umas porradas virtuais.

Pancadaria à parte, há algo de muito positivo nisso tudo: estamos discutindo o racismo que permeia toda a sociedade brasileira. Nem o showbiz, teoricamente mais liberal e diversificado, está imune a essa praga.

Durante décadas, o discurso oficial dizia que o Brasil era um paraíso racial, onde todos viviam na mais perfeita harmonia. De fato, por aqui nunca existiram leis discriminatórias como havia nos Estados Unidos. Isso também fez com que não tivéssemos um movimento pelos direitos civis, como o que chacoalhou os EUA na década de 1960.

Mais sutil e mais perverso, o racismo à brasileira também se provou mais resiliente que o americano. Basta dar uma olhada na televisão e no cinema de lá: já são muitos os atores não brancos nas séries e nos filmes, e há um esforço consciente das emissoras americanas em promover a representatividade diante das câmeras. 

E, apesar do racismo não ser crime tipificado por lei, tampouco ele é perdoado por lá: a rede ABC cancelou “Roseanne”, seu programa de maior sucesso, depois que a protagonista Roseanne Barr soltou um indesculpável tuíte racista.

Por aqui, estamos algumas décadas atrasados. Pretos e pardos são mais de 50% da população brasileira, mas um estrangeiro que visse a nossa TV jamais perceberia isso. Os poucos atores negros na novela “Segundo Sol” (Globo), que se passa em Salvador (BA), são um exemplo flagrante desse desequilíbrio, mas longe de ser o único.

Os clamores por mais representatividade existem há muito tempo, mas vêm engrossando de uns tempos para cá -e, finalmente, estão conseguindo resultados. Alguns ainda bastante tímidos, outros francamente injustos. Mas, pelo menos, uma fatia considerável da sociedade brasileira admitiu a existência do racismo, e se dispõe a discuti-lo.

Essa discussão compete a todos, e não só aos negros. Racismo, machismo e homofobia prejudicam a todos -inclusive aos racistas, machistas e homofóbicos. Com sua visibilidade e influência, o showbiz é uma boa arena para se expor o racismo brasileiro. Ainda há um longuíssimo caminho pela frente, mas os primeiros passos estão sendo dados.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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