Tony Goes

Atração do RioMarket, a realidade virtual chegou para ficar

Era uma vez uma nova tecnologia de captura de imagens. Em seus primórdios, ela era apenas uma atração de feira, que atraía filas de curiosos dispostos a levar sustos.

Aos poucos essa tecnologia se aperfeiçoou, e quem lidava com ela foi descobrindo como melhor utilizá-la. Alguns perceberam que ela servia para contar histórias, mas em uma linguagem diferente da que se usava até então. E começaram a inventar essa linguagem.

Os parágrafos acima descrevem as primeiras décadas do cinema, quando a engenhoca criada pelos irmãos Lumière estava tendo suas possibilidades mapeadas por pioneiros como Georges Meliès.

Também servem para uma inovação cujo impacto mal começou a ser sentido pela indústria do entretenimento, mas que promete virá-la de cabeça para baixo nos próximos anos: a realidade virtual. Ou XR, para os íntimos.

A XR foi uma das atrações do RioMarket, evento de negócios paralelo ao Festival do Rio, que termina neste sábado (14). Na quinta (12), ela foi assunto de uma série de painéis e demonstrações, que intrigaram e deslumbraram o público presente.

A brasileira Priscila Guedes, radicada há anos na França, é uma das desbravadoras desse novo mundo. Ela começou como operadora de câmera no cinema convencional e depois se tornou diretora de fotografia; agora está prestes a lançar seu primeiro curta-metragem como diretora.

Também é sócia do Feel XR Studio, que desenvolve conteúdos para filmes e games em realidade virtual (VR), realidade aumentada (AR) e realidade mista (MR) —o conjunto de todas essas técnicas compõe a XR.

Em sua palestra, ela ressaltou alguns dos desafios que esperam os cineastas que pretendem se aventurar pela XR. Como, por exemplo, direcionar o olhar do espectador, se tudo está em foco? Pelo som, explicou Priscila, que faz com que a atenção se volte para o ponto de onde ele se origina.

Outra palestrante, a canadense Audrey Pacart, CEO do estúdio Very Story, falou das diferenças que um roteiro para uma obra em XR tem em relação a um roteiro cinematográfico. Já foram identificados pequenos truques. Os atores nunca podem estar muito longe uns dos outros, por exemplo.

E a passagem de uma cena para outra não pode ser feita através de cortes, como no cinema. Como a XR engana o cérebro, é preciso usar um recurso que se aproxima da vida real: o fade out (escurecimento), seguido por um fade in (clareamento). Como se os olhos piscassem e se abrissem outra vez.

Por enquanto, a XR ainda não se presta a obras de longa duração. Mas os resultados costumam ser impactantes —como os de "Carne y Arena", dirigido pelo premiadíssimo Alejandro G. Iñárritu (de Birdman e o Regresso). Apresentado no último festival de Cannes, o curta fez o público se sentir atravessando ilegalmente a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

O que vem por aí? Ainda é cedo para saber, mas já dá para suspeitar. O potencial da XR é imenso: não só como diversão, mas também nas áreas de turismo, medicina, pesquisa científica.

Saí das palestras me sentindo velho, mas também uma criança.

(O colunista se hospedou no Rio de Janeiro a convite do RioMarket)

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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