Tony Goes

No Oscar, Gloria Pires divou, mitou, lacrou; achei bacana

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Gloria Pires logrou uma façanha e tanto. Ela não só foi coroada a rainha da internet brasileira, ascendendo aos "trending topics" e gerando uma infinidade de memes, como logrou que eu fizesse algo que não fazia desde os tempos pré-TV paga: assistir à entrega do Oscar pela Globo.

Cinéfilos como eu desprezam a transmissão da emissora. Ela começa a exibir a cerimônia já bem adiantada, priorizando o "BBB" ao invés dos primeiros troféus da noite. E ainda põe comentaristas para guiar o público leigo, o que atrapalha as piadas e irrita quem é do ramo.

Mas Glorinha divou. Mitou. Lacrou. Suas intervenções lacônicas e desinformadas logo invadiram minha segunda tela. E eu me vi obrigado a mudar de canal, sob o risco de perder um dos momentos mais divertidos da televisão brasileira este ano.

A atriz de "Babilônia" ofuscou até mesmo o apresentador Chris Rock, que fez um trabalho excepcional. A Academia já havia dado sorte ao escalá-lo, muito antes da polêmica #OscarsSoWhite eclodir. Brancos como Neil Patrick Harris ou Ellen DeGeneres simplesmente não teriam dado conta do recado.

E Rock deu, atirando para todos os lados. Inclusive para os próprios instigadores do boicote à festa. Sobrou para Jada Pinkett Smith, que começou o movimento: ela, que se destaca na TV bem mais do que no cinema, teria tanto o que fazer no gigantesco teatro Dolby quanto Rock nas calcinhas de Rihanna: "Não fui convidado!".
 
Outra gracinha do mestre de cerimônias caiu mal entre alguns internautas americanos. Ele perguntou porque o protesto pela ausência de negros entre os indicados a ator não rolou em quase todos os anos em que aconteceu o mesmo. Como na década de 1960, por exemplo. "Ah, é, naquela época tínhamos coisas reais para protestar", alfinetou —em referência às passeatas pelos direitos civis dos negros que sacudiram os Estados Unidos.

O show em si foi bastante ágil, na medida em que um leviatã de três horas e meia pode ser. Para isto, duas das concorrentes a melhor canção foram sacrificadas: a ária "Simple Song #3", do filme "Juventude", e a lentíssima "Manta Ray", do documentário "Racing Extinction". Os produtores acharam que elas não tinham apelo comercial, e as limaram do palco.

Aliás, foi nessa categoria que aconteceu uma das poucas surpresas da noite. Sites e casas de apostas apontavam uma vitória fácil de Lady Gaga com a solene "Til It Happens to You", um hino às vítimas do estupro. A cantora foi apresentada por ninguém menos que o vice-presidente Joe Biden, e ainda deu uma performance imbuída de ira santa. Mas o prêmio acabou indo para "Writing’s on the Wall", o tema de James Bond mais "sin cojones" de todos os tempos. Para piorar, Sam Smith miou e desafinou durante seu número.

Houve uma relativa ausência de grandes estrelas. Onde estavam Meryl Streep, George Clooney, Julia Roberts, Tom Hanks? As intervenções ficaram por conta de nomes do segundo escalão, muitos vindos diretamente da TV.

Mas não há muito do que reclamar. As premiações foram as mais justas em décadas, e a cerimônia, que abordou o racismo em Hollywood de forma leve e contundente ao mesmo tempo, vai entrar para a história. Curti. Legal. Interessante.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Últimas Notícias