Tony Goes

Declarações de Charlotte Rampling acirram a polêmica sobre o Oscar 'branco'

A campanha contra a falta de diversidade entre os indicados ao próximo Oscar estava indo muito bem. O que começou como uma reclamação de celebridades negras como Spike Lee e Will Smith, logo se transformou em consenso, com brancos como George Clooney e Reese Witherspoon aderindo à causa.

A própria Academia —cuja atual presidente, Cheryl Boone Isaacs, é negra— manifestou preocupação, além da promessa de estudar maneiras para que seu prêmio anual se torne mais inclusivo.

A aparente unanimidade foi rompida na manhã desta sexta (22), depois de uma entrevista da atriz Charlotte Rampling à rádio francesa Europe 1. Questionada sobre o fato de todos os vinte finalistas nas categorias de atuação serem brancos (inclusive ela mesma, pelo filme "45 Anos"), Charlotte respondeu que "não dá para saber, mas talvez não houvesse atores negros que merecessem a indicação".

Também disse que o suposto boicote convocado por Spike Lee (que já o desmentiu, apesar de admitir que não irá à cerimônia) é "racismo antibranco". Foi o que bastou para incendiar as redes sociais. E também, muito provavelmente, para enterrar qualquer chance de Charlotte no Oscar para toda a eternidade.

A atriz erra quando diz "não dá para saber" se não há atores dignos do prêmio neste ano. Se acompanhasse melhor a indústria da qual faz parte, talvez ela soubesse que Idris Elba (por "Beasts of No Nation") e Michael B. Jordan (por "Creed: Nascido para Lutar") foram injustamente preteridos.


Mas acerta quando se diz contrária a qualquer tipo de cota. Um ator jamais deveria ser indicado ao Oscar pelo simples fato de ser negro. Por outro lado, também é injusto perder a indicação por causa de sua cor —e parece que foi isto que aconteceu nesta temporada.

Charlotte Rampling é britânica e vive há décadas na França. Filma muito em seus dois países, mas pouco nos Estados Unidos. Suas palavras revelam uma certa ingenuidade quanto ao clima cultural daquele país. Essas declarações polêmicas irão persegui-la por um bom tempo —inclusive no tapete vermelho do Oscar, se ela ousar comparecer.

O fato é que, expressando-se mal ou não, a atriz acabou dando voz aos adversários da correção política e aos partidários da meritocracia pura e simples. Talvez ela mesma se sinta atingida: será que estão questionando sua indicação, a primeira que conseguiu em mais de 40 anos de carreira?

É curioso que Charlotte Rampling também represente uma minoria entre os indicados. Com exceção de Meryl Streep, a Academia dá pouca atenção a atrizes com mais de 50 anos de idade. Charlotte, que completa 70 no próximo dia 4 de fevereiro, é um ponto totalmente fora da curva.

O problema da pouca diversidade nem é do Oscar: é da própria indústria de cinema americano, onde as minorias são pouco representadas na frente e atrás das câmeras. Já na televisão a situação está melhorando muito, e atraindo talentos como Viola Davis —o que pode fazer com que o número de filmes estrelados por negros caia ainda mais.

O debate mal começou, e é claro que vai dominar a entrega do prêmio, no dia 28 de fevereiro. Ainda mais porque o apresentador será o comediante negro Chris Rock, que sempre fez piadas ácidas com o racismo. Apertem os cintos: a noite vai ser turbulenta.


Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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