Tony Goes

Globo de Ouro consolida sua marca, mas ainda falta um pouco mais de ousadia

Depois de anos de descrédito, os Globos de Ouro finalmente conseguiram consolidar sua marca. A premiação da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood não é mais vista como uma mera prévia do Oscar. Hoje em dia existem muitos outros prêmios que pretendem antecipar os da Academia. Os Globos de Ouro preferiram se desligar dessa turma, desenvolvendo uma personalidade própria.

Transformaram em qualidades o que seus críticos apontavam como defeitos: a informalidade, o deboche, as escolhas fora da curva. A cerimônia deste domingo (10) confirmou tudo isso, mas deixou um pouco a desejar.

Ricky Gervais voltou como apresentador. Ele já havia cumprido esse papel entre 2010 e 2012, e suas tiradas iconoclastas contribuíram muito para modernizar os Globos de Ouro. Nos últimos três anos, seu posto foi ocupado pela dupla Tina Fey e Amy Poehler, também irreverentes mas bem menos agressivas. O retorno do comediante britânico foi marcado por sua escolha de um novo alvo: o público presente, e os próprios premiados.

Gervais não cansou de mandar a plateia calar a boca, ou parar de rir. Também lembrava a todo instante a irrelevância dos próprios Globos de Ouro, que, segundo ele, não significam absolutamente nada.


Mas foi menos virulento que nos anos anteriores. Chutou um cachorro morto, Bill Cosby, e "fez as pazes" com uma de suas vítimas passadas, Mel Gibson. Também tirou sarro da NBC, a rede americana que transmitia o evento, mas isso é até comum na televisão dos Estados Unidos.

A premiação também se esforçou para ser original. Nas categorias de TV, muitos estreantes nas indicações foram agraciados: "Mr. Robot", "Mozart in the Jungle", Rachel Bloom, Lady Gaga. Os Globos de Ouro parecem querer ser o anti-Emmy, que todo ano distribui seus troféus para os mesmos atores e programas. Pena que esse afã por novidades não chegou a Wagner Moura, que saiu de mãos abanando.

No cinema, as surpresas foram menores. Leonardo Di Caprio e Brie Larson validaram seus favoritismos. Jennifer Lawrence, vencedora pela terceira vez, foi uma das inevitáveis injustiças da noite. E "O Regresso", com três prêmios importantes, demonstrou uma força que provavelmente não repetirá no Oscar.

Pelo menos os discursos de agradecimento não desapontaram. O melhor talvez tenha sido o de Taraji P. Henson, escolhida como melhor atriz de série dramática por "Empire". Desgrenhada e ligeiramente embriagada, ela deu um ligeiro show no pódio, impensável nas cerimônias que não servem álcool.

No geral, foi uma noite simpática, sem grandes decepções. Talvez uma pequena: Ricky Gervais podia ter sido ainda mais venenoso, os prêmios ainda mais atrevidos, os discursos ainda mais bêbados. Afinal, os Globos de Ouro se firmaram como uma festa onde tudo pode acontecer, e agora precisam justificar essa fama.


Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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