Tony Goes

Fortalecimento da dramaturgia na Record é bom para todo mundo

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No final da década passada, houve um momento em que a Record pareceu realmente ameaçar a Globo. As muitas fases da novela "Caminhos do Coração" incomodavam a líder na audiência, e ex-globais eram contratados a peso de ouro pela concorrente. A Record dava a sensação de que seu slogan "A caminho da liderança" era mesmo para valer.

Mas aí a coisa desandou. As novelas da emissora pararam de alcançar números expressivos no Ibope. "Máscaras", em 2012, foi atropelada pelo fenômeno "Avenida Brasil". E autores que haviam emplacado grandes sucessos na Globo, como Carlos Lombardi, não conseguiram repetir o feito na nova casa.

Essa maré baixa refletiu imediatamente no mercado de trabalho dos atores. A Globo parou de tentar segurar alguns nomes com contratos longos, na certeza de que eles não teriam para onde ir quando terminassem seus vínculos empregatícios com a emissora. Os salários baixaram, e o clima de entusiasmo de alguns anos antes dissipou-se completamente. Surgiu até um blog de título maldoso, só com fotos de atores semiesquecidos: "Morreu ou foi pra Record?".

Esta fase dá sinais de ter terminado. Depois de sucessivos fracassos na dramaturgia, a Record marcou um golaço: "Os Dez Mandamentos" é seu maior sucesso desde os longínquos anos 1960. Que foi crescendo aos poucos na audiência, até superar os 20 pontos com frequência em diversas praças —batendo até mesmo, durante os minutos em que coincidem no ar, a combalida "A Regra do Jogo".


"Os Dez Mandamentos" está longe de ser uma novela perfeita. O texto oscila entre o excessivamente coloquial e o pomposo; alguns atores soam tão falsos como se tivessem sido mal dublados. A produção tampouco é impecável, mas é um avanço e tanto quando comparada aos títulos anteriores do canal. E a edição anda abusando dos flashbacks, numa tentativa de esticar ao máximo os capítulos.

Nada disso importa para o público fiel que acompanha a novela. Principalmente quando ela exibe cenas inéditas na teledramaturgia brasileira, como as pragas do Egito. O sucesso é tão grande que a Record assumiu sua vocação: depois de "Escrava Mãe", planejada há tempos e com estreia prevista para novembro, só realizará novelas bíblicas.

Nos últimos dias, a emissora anunciou a contratação de nomes de peso como Cristiana Oliveira, Kadu Moliterno e Paloma Bernardi, todos oriundos da Globo. Eles estrelarão "A Terra Prometida" (um nome com muito mais apelo que o original, "Josué"), a superprodução prometida para meados do ano que vem.

O êxito dessa nova empreitada não é garantido. A história bíblica em que a trama se baseia é muito menos conhecida que a de Moisés, e a Globo vai contra-atacar com uma trama tradicional, "Velho Chico". Mas eu torço muito para que dê certo: uma emissora com dramaturgia forte o suficiente para enfrentar a maior do país é bom para todo mundo. Inclusive para a própria Globo.

Explico por quê: desse jeito não há acomodação, nem apego a velhas fórmulas. Uma concorrência saudável eleva o nível da televisão como um todo. E, claro, abre o mercado de trabalho: atores, diretores, autores e técnicos terão seus passes valorizados. Sem falar nas opções à disposição do espectador.

É assim que funciona a TV na maioria dos países do mundo. O caso brasileiro, dominado durante décadas por um único canal, é uma exceção. Que talvez esteja com os dias contados? Vamos acompanhar com atenção.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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