Tony Goes

'Mad Men' não acabou, só foi interrompida

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Todo mundo fuma o tempo todo. Em casa, na rua, no trabalho, até na maternidade. Isto foi o que mais me chamou a atenção quando vi meu primeiro episódio de "Mad Men", alguns anos atrás. Tanto fumacê não iria passar impune.

E não passou. Um dos personagens principais sucumbiu aos males provocados pelo cigarro. Pare de ler aqui se você ainda não sabe quem é: não dá para comentar o final de uma das séries mais badaladas de todos os tempos sem entregar alguns "spoilers".

Betty Draper (January Jones) foi a escolhida pelo sacrifício. Diagnosticada com câncer de pulmão no penúltimo capítulo do seriado, deram-lhe apenas alguns meses de vida. Sua cena derradeira foi emblemática: sentada a uma mesa, expressão desolada, lendo um jornal —e fumando, é claro.

Ou seja, não mudou. Sofreu, descasou, casou de novo, e no fundo continuou a mesma. Não foi só ela. Seu ex-marido, o megapublicitário Don Draper (Jon Hamm), também comeu o pão que o diabo amassou. Parecia até ter alcançado um novo estágio de maturidade e paz, depois de passar um tempo num retiro espiritual meio hippie. Mas...

Crédito: Justina Mintz/Divulgação O personagem Don Draper medita em cena da última temporada da série
O personagem Don Draper medita em cena da última temporada da série

As imagens finais mostraram que não. "Mad Men" encerrou sua trajetória com um célebre comercial de Coca-Cola, com gente de todas as raças cantando o jingle "The Real Thing" (traduzido no Brasil como "Isso é Que É").

Deu a entender que, no mundo da ficção, foi Don quem criou este anúncio, inspirado pelas pessoas e pela "vibe" alternativa do retiro. O safado conseguiu transformar uma sublime experiência de elevação numa reles ideia publicitária, para vender o produto mais conhecido do mundo. Não mudou nada.

Falou-se muito que "Mad Men" era sobre mudança. Mais especificamente, sobre as alterações radicais que os anos 60 do século passado trouxeram para a cultura do Ocidente. Feminismo, liberação sexual, consumo de drogas, direitos civis, conscientização política.

Tudo isto foi retratado no programa concebido pelo roteirista Matthew Weiner, que treinou sua arte em outra série de enorme influência, "A Família Soprano". Mas o verdadeiro tema de "Mad Men" não é a mudança. É a mentira.

Todos os personagens mentiam o tempo todo, e ninguém mentia mais que Don Draper. Para começar, este nem era seu nome verdadeiro: disposto a apagar uma infância miserável e a conseguir cacife para entrar no então fechadíssimo mercado da propaganda, ele assumiu a identidade de um soldado morto quando ambos lutavam na Guerra da Coreia (1950-1953).


Peggy (Elizabeth Moss) mentia sobre o filho que precisou entregar para a adoção. Joan (Christina Hendricks) mentia sobre o que teve que fazer para conquistar uma grande conta para sua agência. Todos os personagens masculinos mentiam sobre suas amantes e suas falcatruas, pequenas ou grandes.

E todos trabalhavam num dos ofícios mais mentirosos do mundo, a publicidade. Que exagera benefícios, esconde defeitos e cria um universo de fantasia para seduzir os consumidores.

Apesar das diferenças tecnológicas com a nossa época, "Mad Men" exibiu práticas que são comuns na propaganda até hoje. É por isto mesmo que episódios da série são exibidos em cursos de marketing.

Mas seu maior mérito foi penetrar na alma de seres humanos complexos, num ritmo muito mais relaxado do que séries como "Breaking Bad".

Como um bom uísque, "Mad Men" demandou tempo para ser degustada. As últimas temporadas patinaram um pouco, é verdade. E quem esperava um final grandioso, com tudo bem amarradinho e alguma cena devastadora, saiu desapontado.

Porque "Mad Men" não acabou. Só foi interrompida. Em algum lugar, Don Draper continua paquerando, bebendo e fumando. E criando mentiras que gostamos de ouvir.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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