Tony Goes

Sem trama central forte, 'Babilônia' se perde em lições de moral

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Há um novo esporte favorito entre os comentaristas de TV: apontar as falhas de "Babilônia", a novela das 21h da Globo que vem patinando na audiência e sendo atacada pelos conservadores.

"Babilônia" também está decepcionando a crítica —além do mais, porque a expectativa era grande. Elenco estelar e autores com "pedigree" nos fizeram imaginar uma digna sucessora de "Vale Tudo" (1988) ou "Avenida Brasil" (2012).

Mas a nova trama de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga não tem o eixo fundamental desses outros clássicos da teledramaturgia: uma trama central claramente definida, que o público pôde entender desde o primeiro capítulo.


Em "Vale Tudo" (1988) havia o embate entre Raquel, a mãe boa (Regina Duarte) e Maria de Fátima, a filha má (Glória Pires). Logo na estreia, a jovem vilã vendia a casa da mãe em Foz do Iguaçu e se mandava com a grana para o Rio de Janeiro.

Já "Avenida Brasil" (2012) era uma versão contemporânea do conto da Branca de Neve: menina órfã (Mel Maia, depois Débora Falabella) é abandonada pela madrasta (Adriana Esteves) num ambiente hostil, o lixão. As razões da vingança de Nina contra Carminha eram estabelecidas logo de cara, e o espectador seguiria o desenrolar deste enredo até o final.

"Babilônia" também teve uma primeira fase, mas a história, na verdade, começou alguns anos antes. A simples inveja que Inês (Adriana Esteves) sente da ex-amiga Beatriz (Glória Pires) não prende o interesse de ninguém. Este problema foi identificado nos grupos de pesquisa encomendados pela emissora, que resolveu adiantar o segredo que envolve as protagonistas: o pai de Inês foi amante de Beatriz, e se matou ao ser rejeitado por ela.

Talvez devessem ter feito esta revelação desde o começo. A esta altura, "Babilônia" já parece ser povoada por malvados sem muita motivação. Pode até ser isto o que está incomodando alguns segmentos: os maus da novela parecem ser maus pelo simples prazer de serem maus.

Os autores até tentaram inovar o confronto entre duas mulheres fortes, um excelente ponto de partida, acrescentando uma terceira. Mas Regina (Camila Pitanga), o vértice bondoso desse triângulo, ainda tem ligações tênues com a dupla de biscas - apesar de Beatriz ter matado seu pai à queima-roupa, fato que a mocinha desconhece até agora.

Sem poder explorar muito este tríplice conflito, "Babilônia" se perde em aulinhas de educação moral e cívica. No capítulo desta segunda-feira (20), aprendemos que: 1) é muito feio discriminar pessoas; 2) casais gays que adotam crianças estão fazendo o bem; 3) fanáticos religiosos são pessoas tacanhas, cegadas pela fé irracional.

Tudo isto é muito bonito, mas faz com que a novela assuma um tom professoral e trate seu público como criança. Ou seja, fique chata. E ainda tem aquela academia de dança que não serve absolutamente para nada...

"Babilônia" prometia ser um novo marco na história da televisão. Mas, por enquanto, será mais lembrada por seus defeitos do que por suas qualidades. Será que ainda há tempo para corrigir seus rumos?


Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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