Tony Goes

Luiz Bacci, sua carreira tem problemas maiores do que uma imitação

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A tumultuada saída de Luiz Bacci da Band teve mais um capítulo bizarro no começo desta semana. O apresentador não gostou de ver que o humorista Gui Santana, do "Pânico", continua parodiando-o com o personagem Luiz Abate. Alegou não ter sido avisado e que irá consultar seus advogados.

Havia uma cláusula no contrato de Bacci com sua antiga emissora que estipulava que ele não poderia se queixar de eventuais imitações nos programas de humor da casa. Agora de volta à Record, o ex-"menino de ouro" se sente livre para reclamar.

Não é só ele. Dezenas de celebridades brasileiras, de Clodovil a Jô Soares, já manifestaram desagrado com as imitações com que foram "homenageadas". Algumas acionaram a Justiça para calar os imitadores. E ficou famosa a "autorização" dada por Silvio Santos à paródia feita pelo comediante Ceará, a única oficialmente permitida pelo empresário.

Este é mais um traço pré-moderno da cultura brasileira. A lei garante liberdade de expressão, o que teoricamente garantiria a liberdade de se tirar sarro de quem quer que fosse. Mas muitos juízes entendem que a honra dos satirizados foi ofendida, e o resultado é um clima de insegurança jurídica onde nunca é claro o que pode e o que não pode.


O pior é quando os próprios políticos resolvem se proteger dos humoristas. Na véspera das eleições de 2010, o Congresso aprovou uma lei que proibia qualquer tipo de gracinha com os candidatos —de imitações na TV a charges nos jornais. O STF derrubou essa aberração constitucional, mas ficou ainda mais claro o ranço autoritário que nos permeia.

Essas restrições são impensáveis em democracias maduras, como os Estados Unidos. Lá, os comediantes têm carta branca para imitar quem quiserem, e os imitados nem sonham em processá-los. Alguns até embarcam na brincadeira. Sarah Palin, candidata a vice-presidente pelo partido republicano em 2008, fez questão de confrontar ao vivo a cruel paródia feita por Tina Fey no programa "Saturday Night Live".

Por aqui as coisas começam a melhorar. Marcelo Adnet, no humorístico "Tá no Ar" (Globo), vem cantando os sucessos do momento com a voz de Silvio Santos, e não consta que o dono do SBT tenha se manifestado. Aliás, o "Tá no Ar" está quebrando vários tabus, mexendo com política, religião e os próprios anunciantes da Globo, algo impensável até pouco tempo atrás.

Mas ainda falta muito para nossa mentalidade evoluir. Tanto que ainda estamos debatendo sobre as biografias não-autorizadas, outro ponto onde nossa visão arcaica do mundo deixa a desejar.

Meu conselho para Luiz Bacci: deixe de bobagem. Esqueça o processo, divirta-se com o Luiz Abate e concentre-se no seu trabalho. Sua carreira tem problemas maiores do que uma imitação, que aliás nem é das melhores.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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