Tony Goes

Personagens de 'House of Cards' estão menos malvados na 3ª temporada

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"Existem apenas duas tragédias na vida: uma é não conseguir o que se deseja, e a outra é conseguir."

A famosa frase de Oscar Wilde cabe como uma luva em Frank Underwood, o protagonista de "House of Cards". Agora em sua terceira temporada, a série do Netflix mostra o personagem mais atormentado que nunca. Porque ele alcançou seu maior objetivo: a presidência dos Estados Unidos.

_[SPOILER: Se você não sabe como acabou a segunda temporada, melhor não continuar]_

Não foi pelo voto. Sem grande apelo popular nem projeção nacional, Underwood usou de toda sorte de subterfúgios para sabotar os rivais e conquistar a vaga de vice-presidente na chapa que saiu vitoriosa nas eleições. Uma vez empossado no segundo posto do comando da nação, ele manobrou para forçar a renúncia do presidente e tomar-lhe o lugar.

Chegou até mesmo a eliminar desafetos com as próprias mãos, um dos aspectos mais inverossímeis do programa. Porque os políticos malvados da vida real não matam, mandam matar.

Foi esta total ausência de freios que fez de Frank Underwood um personagem tão fascinante. E é por isto mesmo que, depois de assumir a tão sonhada presidência, ele perde um pouco desse fascínio.


Suas decisões agora afetam o destino de bilhões de pessoas. E os obstáculos que ele enfrenta são muito maiores do que antes: o escrutínio impiedoso da imprensa, a falta de apoio em seu próprio partido e implacáveis adversários internacionais.

_[SPOILER: Se você não quer saber nenhum detalhezinho da terceira temporada, melhor não continuar]_

Para complicar mais as coisas, sua mulher Claire —até então uma perfeita parceira no crime, tão ambiciosa e amoral quanto Frank— começa a exibir escrúpulos, provocando um incidente diplomático com a Rússia.

O prazer quase sádico com que o espectador assistiu às duas primeiras temporadas de "House of Cards" agora é amortizado pelas responsabilidades esmagadoras assumidas por Frank Underwood. Ao se tornar o homem mais poderoso do planeta, ele descobre que seu poder não só é limitado, como também é alvejado por todos os lados.

Este terceiro ato do que se anuncia como uma tragédia não é perfeito. Numa das muitas subtramas, Underwood contrata um escritor consagrado para escrever sua biografia. O resultado é um texto baba-ovo que nem o mais puxa-saco dos assessores se atreveria a cometer.

A tensão sexual dos primeiros tempos também se evaporou. Nem Frank nem Claire têm dado suas escapadas, ou apimentado a relação com "ménages à trois". Os dois chegam a renovar os votos matrimoniais numa cerimônia religiosa, ainda mais espantosa porque parece ser sincera.

Mas "House of Cards" continua sendo um primor em direção e elenco. Kevin Spacey e Robin Wright dão seu show costumeiro, e ela ainda acumula a função de diretora de alguns dos episódios.

O impacto universal da série traz a pergunta inevitável: por que a política é um assunto tão raro na teledramaturgia brasileira? Os poucos políticos das novelas costumam ser retratados como corruptos, mas sem muitas nuances.

Será que o público brasileiro prefere as histórias de amor do que os bastidores da luta pelo poder? O sucesso que "House of Cards" faz em alguns segmentos sugere que não. E a turbulência que estamos atravessando atualmente mostra que matéria-prima é o que não falta.


Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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