Tony Goes

2014 foi ano em que a TV passou à frente do cinema

Houve um tempo em que fazer televisão era o considerado o fim da carreira para um astro do cinema americano. Os grandes nomes só apareciam em participações especiais, como a que Joan Crawford fez num episódio de "I Love Lucy".

Mas trabalhar numa série irregular era sinal de decadência, porque a TV era tida como um veículo inferior. Não importava que um programa qualquer fosse ser visto por muito mais gente do que um filme de sucesso. Os orçamentos mais apertados, os prazos mais curtos e a apelação a truques melodramáticos deixavam a TV com cara de prima pobre.

Ah, nada como um dia depois do outro. O advento dos canais pagos e a fragmentação da audiência fez subir o nível dos roteiros dos seriados, atraindo talentos já estabelecidos. Há pouco mais de dez anos, a abundância de programas de qualidade como "Família Soprano" ou "Lost" fez a crítica especializada falar numa "era de ouro" da TV.

Esta era só estava começando. De lá para cá, a qualidade se manteve, mas os hábitos dos espectadores passaram por uma mudança radical. Primeiro houve a proliferação das caixas de DVD, que permitiam que uma temporada inteira fosse devorada num único final de semana.


Depois, a explosão dos gravadores digitais —uma revolução que, apesar de ter chegado ao Brasil, nunca "pegou" entre nós. Mas nos EUA esse aparelhinho libertou o público do jugo das emissoras. Agora cada pessoa pode fazer sua própria grade de programação, assistindo quando bem entender aos programas que gravou.

Tanta gente aderiu ao novo hábito que hoje a medição de audiência precisa levar em conta esse imenso contingente. Mas uma transformação ainda mais radical não demorou a surgir: os serviços de "streaming" pela internet, como o Netflix.

E aí aconteceu uma pororoca cultural. Séries que viviam escondidas em canais obscuros de repente passaram a ter todas as suas temporadas ao alcance de um novo público. Foi a época em que muita gente descobriu "Breaking Bad", por exemplo. A saga de Walter White já se aproximava do desenlace quando, de uma hora para a outra, conquistou uma legião de fãs muito maior do que a que a acompanhava desde o início.

Hoje pode-se dizer que a dramaturgia da TV já supera a do cinema. Pense nos bons filmes que você viu este ano: quantos deles são melhores que "Game of Thrones", "Mad Men" ou "Homeland"?

Nesses novos tempos, um ator como Matthew McConnaughey pode ganhar um Oscar no mesmo ano em que envereda pela televisão. A telinha não é mais o exílio dos decadentes, muito pelo contrário. Um seriado de prestígio fica muito melhor num currículo do que um filme meia-boca.

A tendência vem de longe, mas, para mim, 2014 foi o ano em que a TV superou oficialmente o cinema. O que virá em seguida? Provavelmente, uma fusão cada vez mais intensa entre as duas mídias. Daqui a pouco não faremos mais distinção entre elas. Só vai mudar o tamanho da tela.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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