Tony Goes

Artistas perderam o poder de influenciar o voto

Digamos que você ainda esteja indeciso. Mesmo depois de tantos debates na TV, tanta briga nas redes sociais, você continua sem saber em quem vai votar no próximo domingo. Periga até anular.

Aí você descobre que um dos seus artistas favoritos está apoiando um dos dois candidatos. Em outros tempos, este apoio talvez fizesse você se resolver. Hoje em dia? No máximo, você mudará sua opinião sobre o próprio artista.

A participação da classe artística na campanha pelas Diretas Já, em 1984, foi fundamental para colocar quase todo o Brasil contra o regime militar. Naquele tempo ainda havia censura e nem se sonhava com a internet. Cantores e atores famosos tinham um peso desproporcional na política.

Agora o país é outro. Como disse a própria presidenta, ninguém é dono do voto de ninguém. O apoio de algum artista rende um certo prestígio ao candidato, é claro. Mas será que rende votos?

O que rende mesmo é uma série de críticas —e até ameaças— ao artista. Luciano Huck está sendo patrulhado pelos próprios colegas. Gregório Duvivier foi agredido no meio da rua. A baixaria reinante está respingando sobre eles, e sobre muitos outros que ousaram abrir a boca.


Moral da história: será que os artistas deveriam não declarar voto, sob o risco de prejudicarem suas próprias carreiras? É óbvio que não. Apesar disto, esta é uma postura confortável e seguida por muita gente. Mas reduz a arte ao mero entretenimento, sem a menor pretensão de mudar o mundo.

Sou a favor de que todas as pessoas, não só as celebridades, tenham um posicionamento. Aquele papo de "ai, não tenho o menor interesse por política, acho tudo muito chato" é pura alienação, e deixa a porta aberta para que despreparados (ou coisa pior) assumam o poder.

Mas um artista que participa da propaganda política precisa ter algo claro em mente: ele só representa a si mesmo. No máximo, funciona como chamariz para o candidato que está apoiando. E corre o risco de atrair para si a imensa ira que já é direcionada a este candidato.

Numa época em que as opiniões parecem tão arraigadas que nem fatos concretos conseguem mudá-las, a clássica figura do "formador de opinião" podem estar em vias de extinção. Inclusive porque mais e mais pessoas se expõem cada vez menos a ideias diferentes das suas. Só leem quem já concorda com elas e só ouvem quem já diz o mesmo que pensam.

É neste ambiente carregado que os artistas —muitos deles até inconscientes do poder de repercussão de um simples tuíte— estão aprendendo a navegar. Que não se iludam: nada será como antes. Nada já é.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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