Tony Goes

Obrigado, internet, por nos ter feito rir dessa derrota

Cresci ouvindo histórias de terror sobre o "Maracanazo". Segundo as testemunhas, a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950, em pleno Maracanã, foi o ponto mais baixo de toda a nossa história. Uma tragédia nacional. Um trauma jamais superado, nem pelas nossas vitórias futuras.

Tive a sorte de ver o Brasil vencer na primeira Copa que acompanhei para valer, em 1970. Mas depois presenciei muitos fracassos da nossa seleção. O mais doído foi em 1982, quando tínhamos um time realmente excepcional. Mas todos doeram, sem exceção, e alguns doem até hoje.

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Engraçado. A derrota de 2014 não está doendo. Não sei se é por que, a essa altura da vida, eu sei perfeitamente que uma vitória numa Copa do Mundo rende só uns dias de festa e pronto. Depois a vida continua, igualzinha ao que era antes.

Ou então é porque o que aconteceu no Mineirão na terça-feira (8) não foi só uma derrota. Foi uma humilhação tão grotesca que chega a ser uma piada. Uma "heptacombe", como chegou a ser dito nas redes sociais.

E quer saber? Foram elas que salvaram o dia. A quantidade de memes, trocadilhos e alfinetadas foi tão grande que —juro— acho que eu me diverti mais do que se tivéssemos ganho.

Acompanhei o jogo com um olho na TV e o outro no computador. E, como nas finais do "BBB", os melhores lances rolaram na segunda tela.

O desânimo causado pelo primeiro gol da Alemanha, aos 10 minutos do primeiro tempo, logo descambou para o desespero. Mas, como diz a canção, somos brasileiros, com muito orgulho —e antes do intervalo a tristeza já havia se transmutado em galhofa.

Facebook, Twitter e Whatsapp ferveram. O vídeo de um caneco de chope esmagando o que parecia ser um daiquiri de tamarindo —talvez o que os alemães suponham ser o nosso drink mais típico— viralizou em segundos.

Na sequência, Nazaré Tedesco roubou a taça, Nana Gouvêa posou no gramado e Neymar agradeceu em espanhol por ter sido poupado desse "mierdero". E nos consolamos ao pensar que perdemos a Copa, mas nossos adversários perderam duas guerras mundiais. Seguidas!

Brasileiro consegue transformar qualquer desgraça em piada. Quem não lembra do humor negro que brotou depois da morte de Ayrton Senna? Mas eu nunca tinha visto tantas risadas num dia tão negro.

Essa capacidade de rir de nós mesmos é uma das nossas melhores qualidades. E a internet, com suas conexões infinitas e sua velocidade instantânea, nos ajudou a suportar o maior vexame esportivo de todos os tempos.

Te amo, internet. Casa comigo?


Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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