Tony Goes

Livro revela os segredos da MTV, e eu revelo que o autor é meu irmão

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Antes de mais nada, que uma coisa fique bem entendida: Zico Goes é meu irmão. Quero esclarecer isto logo, porque vou falar do livro que ele acabou de lançar. E vou falar bem.

Na verdade, acho que eu falaria bem de "MTV, Bota Essa P#@% Pra Funcionar" (Panda Books) mesmo se não tivéssemos nenhum parentesco. O livro é bem escrito, engraçadíssimo, revelador, instrutivo, provocante, desbocado e inspirador. Ah, e baratinho: apenas R$ 27, já nas boas casas do ramo.

Mas faltam imagens. Verdade que há toda uma seção de fotos coloridas do meu irmão ao lado de alguns dos VJs mais conhecidos. Só que a saga da MTV Brasil merecia um "coffee table book", de capa grossa, impresso a cores em papel couché. Com um DVD de brinde. Um canal tão inovador visualmente carecia de um registro luxuoso, mas é o que temos para o momento.

Escrito a quente, durante e logo após os últimos meses da primeira encarnação brasileira da MTV, o livro é o relato de um cara disciplinado e apaixonado, que passou a maior parte de sua vida adulta dentro da emissora que funcionava no bairro paulistano do Sumaré.

Zico foi um dos funcionários mais longevos da casa: entrou em 1991, saiu (ou melhor, foi saído) em 2008, voltou no final de 2010 e ficou até o apagar das luzes, em setembro do ano passado. Testemunha e personagem de uma história que afetou o panorama da televisão brasileira, muito mais do que alguns canais de maior audiência.

Meu irmão resume mais de 20 anos em pouco mais de 150 páginas. Talvez soe superficial para os pesquisadores do futuro, mas para nós, que vimos muito do canal enquanto ele estava no ar, o texto serve como um gatilho que detona um turbilhão de memórias.

A MTV revelou muito mais do que dezenas de apresentadores e comediantes, que hoje se espalham por inúmeros canais: Astrid Fontenelle, Zeca Camargo, Fernanda Lima, Marcelo Adnet, Marcos Mion, Dani Calabresa, Tatá Werneck... A lista é imensa, e não se resume ao pessoal que fica em frente às câmeras. O jeito MTV de fazer televisão hoje está presente em quase todas as emissoras brasileiras.

O livro é recheado de "causos" saborosos (meu favorito é o "sequestro" de um carro da Abril por Paula Lavigne), mas também relata derrapadas históricas como a "Casa dos Autistas". Zico cometeu muitos erros, e não os esconde do leitor. Tampouco se furta de apontar o dedo para a imprensa que lhe pegava no pé, como — ó ironia do destino — a "Folha de S.Paulo".

Assolada pela internet, a MTV vai mal das pernas no mundo inteiro. Outras filiais também fecharam, como a da Rússia. Mas nenhuma deixou um legado tão transgressor como a versão da qual meu irmão participou. Hoje a MTV brasileira, renascida como canal pago, tenta se reinventar.

Será que vai repetir a explosão criativa de sua antecessora? Dificilmente, porque os tempos são outros. Mas não dá para negar que, mesmo fracassando comercialmente, a MTV Brasil funcionou. E, de certa forma, está funcionando até hoje.

Meu irmão é f*#%.

Crédito: Daniel Marenco/Folhapress Zico Goes, ex-diretor da MTV Brasil
Zico Goes, ex-diretor da MTV Brasil

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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