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"Saramandaia" de 1976 era nordestina e mais politizada

24/06/2013 - 09h33

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No começo da década de 70 do século passado, o município gaúcho de Não-Me-Toque mudou de nome. Inconformada com as brincadeiras constantes das cidades vizinhas, parte da população se organizou num movimento que conseguiu rebatizar o lugar de Campo Real.

Este episódio verídico serviu de ponto de partida para Dias Gomes escrever "Saramandaia", novela que marcou época na Globo em 1976. A outra inspiração era o realismo mágico, estilo literário que fazia furor na América Latina e que tinha seu maior expoente em Gabriel Garcia Márquez.

Eram tempos de ditadura e marcação cerrada da censura sobre os meios de comunicação. Dias Gomes, comunista confesso, era um dos alvos prediletos das tesouras. No ano anterior, sua novela "Roque Santeiro" foi totalmente impedida de ir ao ar, já com dezenas de capítulos gravados (só "ressuscitou" em 1985, quando o regime militar agonizava).

"Saramandaia" foi uma espécie de vingança do autor. Tudo o que era explicitamente politico em "Roque Santeiro" virou metáfora. Nem assim os censores deram trégua: muitas cenas eram cortadas, só para passarem incólumes alguns capítulos adiantes. Os critérios da repressão eram mesmo confusos.

Como muitas novelas de Dias Gomes, "Saramandaia" não tinha propriamente uma história, onde um fato desencadeia em outro até o desfecho final. Era mais uma situação, semelhante à dos seriados americanos de humor. A fictícia Bole-Bole (em vias de ser renomeada) tinha personagens bem construídos e em conflito constante, mas sem resolução à vista.

Era um programa sofisticado, ainda mais para o Brasil de quase 40 anos atrás. Mas caiu no gosto popular, o que nem sempre acontecia com as novelas que a Globo exibia no extinto horário das 22 horas. Sua antecessora, "O Grito", de Jorge Andrade, era uma trama árida que foi mal de audiência.

Em "Saramandaia", a aridez aparecia apenas no cenário sertanejo. Curiosamente, o "remake" que estreia nesta segunda-feira (24) não tem nada de nordestino. Com gravações em Bananal, no interior do estado de São Paulo, a nova versão se passa num rincão indefinido do país.

Por um lado, é um alívio não sermos submetidos mais uma vez ao Nordeste "fake" que a Globo costuma produzir. Atores de sotaque forçadíssimo e uma certa folclorização dos problemas que afligem a região já deram o que tinham que dar.

Por outro, o desenraizamento de "Saramandaia" soa quase como traição ao original de Dias Gomes. Personagens como o homem com asas, o lobisomem ou a moça que pega fogo são ecos da literatura de cordel. Trazê-los para o sul deixa-os mais inofensivos e, paradoxalmente, sem reflexos na vida real.

E por falar em "desnordestização", onde é que está "Pavão Mysteriozo"? O tema de abertura da "Saramandaia" de 1976, cantado por Ednardo, foi um dos majores sucessos daquele ano. Mas não foi tocado nas chamadas da versão atual, o que me faz suspeitar que nem tenha sido incluído em sua trilha sonora.

Se for isto mesmo, que pena. Poucas vezes uma canção conseguiu captar tão bem o espírito de uma novela, mesmo não tendo sido especialmente escrita para ela.

Ah, em tempo: Alguns anos depois da mudança, Campo Real voltou a se chamar Não-Me-Toque. Ainda bem.

Tony Goes

Tony Goes tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: http://tonygoes.blogspot.com

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