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A incrível noite em que a Globo cancelou duas novelas

21/06/2013 - 09h32

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Minha mãe ficou desconsolada. "Flor do Caribe" não foi exibida nesta quinta-feira (20), tampouco "Sangue Bom". "Não tenho nada para ver na televisão!"

Não adiantou eu lembrá-la que seu pacote de TV por assinatura inclui dezenas de outros canais. Ela queria suas novelas, e ponto final.

Foi mesmo uma noite excepcional, na telinha e fora dela. A Globo surpreendeu logo no início da tarde: preferiu não mostrar o jogo Espanha x Tahiti, porque o contrato com a FIFA não permite que as transmissões das partidas sejam interrompidas para boletins noticiários.

Uma decisão ousada, ainda mais levando em conta a quantia desembolsada pelos direitos da Copa das Confederações. Sem falar que, mais adiante, a emissora também precisará compensar todos os anunciantes do torneio.

Mas ela optou por exibir um capítulo de "Malhação", e cortar quando quisesse para as manifestações que pipocavam de norte a sul pelo Brasil.

Terminada a novelinha, não foi só a programação normal que foi cancelada: também sumiu a propaganda. Que só retornou às 20h40, no primeiro intervalo do "Jornal Nacional".

Foi admirável a decisão da Globo em se transformar, ainda que por algumas horas, em seu canal de notícias na TV paga, a Globo News. Mesmo lembrando que os protestos de ontem foram os maiores e mais violentos de toda a história do país, e que portanto mereciam cobertura ao vivo (com isto até minha mãe concordou).

Muita gente perguntava nas redes sociais se a Globo teria "aderido". Afinal, décadas depois, estão frescos na memória coletiva escândalos como o do Proconsult (uma tentativa de manipulação do resultado das eleições estaduais no Rio de Janeiro, em 1982), ou o da edição tendenciosa de um debate entre Lula e Collor, em 1989, em favor deste último.

Claro que a Globo precisa sentir para que lado o vento sopra. Não pode ir contra a opinião majoritária de sua audiência, sob o risco de perder a liderança que mantém há mais de 40 anos.

Mas também há um detalhe que passa batido pelos internautas e telespectadores comuns: a casa está sob nova direção.
O novo diretor-geral da Globo é Carlos Henrique Schroder, jornalista de reputação ilibada. É natural que, sob seu comando, a emissora dê mais atenção à sua missão de informar.

Ainda assim, nos últimos dias ficou nítido que os telejornais estavam desenfatizando a violência de alguns protestos. Qualquer arruaça era causada sempre por "uma pequena minoria" ou por "um grupo não-representativo".

Ontem, a partir de certo momento, esses termos não combinavam mais com as imagens. Os apresentadores ainda insistiam que os protestos eram "pacíficos" e até "bonitos de se ver", mas precisaram mudar de tom quando as chamas de um coquetel molotov engolfaram uma coluna do palácio do Itamaraty.

O "Jornal Nacional" não teve escalada nem manchetes. Simplesmente deu prosseguimento à cobertura especial que já vinha sendo feita. E "flashes" ao vivo continuaram interrompendo os programas que vieram depois, noite adentro.

Pelo menos "Amor à Vida" foi exibida. Caso contrário, mamãe também teria ido às ruas protestar.

Tony Goes

Tony Goes tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: http://tonygoes.blogspot.com

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