Tony Goes

Pobres subcelebridades, nem se eleger conseguem mais

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Aconteceu um fenômeno curioso nesta eleição. De norte a sul, dezenas de ex-jogadores de futebol, ex-BBBs, mulheres-frutas e talentos indefinidos concorreram a prefeito ou vereador. Quase todos fracassaram redondamente. Será que mudamos nossa maneira de votar?

Antigamente, bastava algum famoso se candidatar para estar praticamente eleito. As atrizes Bete Mendes, em São Paulo, e Daisy Lucidi, no Rio, tiveram votações expressivas. Também exerceram mandatos conscientes: nenhuma das duas entrou para a política por leviandade. Bons tempos aqueles.

Mas aí a moda foi se alastrando, e alguns artistas em fim de carreira enxergaram nos cargos públicos uma maneira de estender seus minutinhos de fama.

Alguns até se posicionaram como candidatos de protesto: foi o caso de Clodovil, que prometia que "Brasília nunca mais será a mesma" depois de eleito deputado federal. O saudoso Clô foi um dos mais votados em 2006, e o que foi que ele fez ao chegar ao Congresso? Pouco mais do que redecorar seu gabinete.

Crédito: Sérgio Lima/Folhapress Clodovil Hernandes disse que, se eleito deputado federal, transformaria Brasília
Clodovil Hernandes disse que, se eleito deputado federal, transformaria Brasília

Quatro anos depois tivemos Tiririca, que surfou até Brasília sobre uma onda de mais de um milhão de votos. Sua campanha se dava ao requinte de não prometer absolutamente nada: "pior que está não fica". Mas, uma vez na capital, o palhaço surpreendeu. É hoje um dos parlamentares mais assíduos, e já apresentou vários projetos de lei.

Seu sucesso nas urnas certamente inspirou a avalanche de candidaturas de subcelebridades em 2012. Mas alguma coisa mudou em nossa psiquê coletiva, porque quase todas deram com os burros n'água.

Talvez tenha ficado claro que a maioria só estava a fim de garantir a própria aposentadoria. Promessas vagas de "mais escolas", "mais hospitais" e "mais transporte" soam estranhas na boca de quem costuma dançar até o chão, chão, chão.

Não há dúvida de que a fama ainda ajuda, e muito. Até mesmo a fama por tabela: uma grande capital periga eleger, no segundo turno, um prefeito cuja maior "realização" é ser filho de um apresentador de TV.

Mas só a fama já não é mais o bastante. Que o digam os cantores e humoristas que tiveram votações irrisórias, e agora estão sendo ridicularizados nas redes sociais.

De uma coisa não podemos reclamar: depois de tantos deles andarem meio esquecidos, fazia tempo que não nos divertiam tanto.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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