Tony Goes

"Girls", nova série da HBO, é um anti-"Sex and the City"

Era uma vez quatro amigas solteiras que buscavam amor e sucesso profissional em Nova York. Uma delas queria ser escritora. Pronto: acabam por aí as semelhanças entre a série "Girls", que estreia hoje à noite na HBO, e a já clássica "Sex and the City".

Acho que, se não se passassem na mesma cidade, os dois programas não seriam comparados o tempo todo. Porque as moças de "Sex and The City" tinham todas mais de 30 anos e, apesar dos precalços, uma auto-confiança que as de "Girls" nem sabem que existe.

A ironia começa pelo título, que chama as protagonistas de garotas: na verdade elas são mulheres adultas, por volta dos 25 anos. Mas nenhuma pode ser chamada de "mulher feita". São imaturas, irresponsáveis e sem independência econômica.

Aliás, é justamente por este tema que o seriado começa: a primeira cena mostra a protagonista Hanna jantando com os pais, que moram no interior e vieram visitá-la para trazer uma triste notícia. Vão cortar-lhe a mesada.

Hanna, formada há dois anos, ainda não tem propriamente um emprego. Só um estágio, e sem maiores perspectivas. Mas seus genitores são impiedosos: preferem usar o dinheiro para construir uma casa de campo.

Estamos longe do universo luxuoso de "Sex and the City", onde as personagens mantinham closets recheados de sapatos caríssimos. Em "Girls" ninguém tem grana para nada. Os tempos são outros.

Crédito: Divulgação O quarteto central da série 'Girls'
O quarteto central da série 'Girls'

Não é só nos cenários e figurinos que a ausência de glamour é absoluta. Também nos relacionamentos. Os namorados são feios, e no episódio de estreia há uma cena de sexo tão canhestra que chega a ser engraçada.

Por falar em graça, que ninguém espere rolar de rir. Os tempos são outros também na maneira de se escrever comédia: aqui o formato é diferente do modelo consagrado por "Friends" ou "Seinfeld", onde uma piada era disparada a cada 10 segundos. O humor de "Girls" é mais sutil e mais realista.

Nos Estados Unidos, "Girls" fez sucesso suficiente para garantir uma segunda temporada. E conquistou cinco indicações para os prêmios Emmy, o Oscar a TV americana, inclusive para melhor série cômica.

Três dessas indicações foram para Lena Dunham: atriz, diretora e roteirista. É uma façanha e tanto para quem tinha despontado no filme independente "Tiny Furniture", jamais exibido no Brasil.

Lena não chega a ser feia, mas está longe dos padrões habituais de beleza. Sua aparência comum confere mais autenticidade ao seriado, mas claro que o que conta mesmo é o talento. Tudo indica que terá uma carreira longa e variada, como a de Tina Fey (de "30 Rock").

Se "Sex and the City" mostrava uma Nova York dos sonhos, "Girls" retrata a vida como ela é. Com humor, mas sem dó de suas "meninas". Talvez não tenha o impacto cultural que tiveram Carrie e suas amigas, mas parte de um ponto de vista interessante. Até quando a turma de Hanna conseguirá não crescer?

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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