Tony Goes

Iaiê... lembranças da primeira versão de "Gabriela"

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Dia desses eu estava assistindo TV distraído, com um olho na tela e outro numa revista. De repente passou a primeira chamada da nova versão de "Gabriela" - aquela em que Juliana Paes é transformada na personagem-título. E no final, quando ela já está devidamente caracterizada, entrou o corinho: "iaiê"

Pronto. Foi o que bastou para os meus olhos se encherem de lágrimas. Fazia quase 40 anos que eu não escutava "Porto", um lindo tema composto por Dori Caymmi e cantado pelo MPB-4, que era parte da trilha sonora original da novela de 1975. Era a canção que embalava os encontros amorosos entre Gabriela e Nacib.

"Porto" estava adormecida na minha memória. Nunca mais ouvi, nunca mais lembrei. Mas foi só escutar essas quatro vogais - iaiê - para uma avalanche de lembranças tomar conta de mim. A música tem esse poder.

Eu tinha 14 anos quando a Globo exibiu "Gabriela" pela primeira vez, no extinto horário das 10. Foi a primeira novela dessa faixa que eu pude ver nos dias de semana: até então, só tinha permissão de assistir às tramas das 10, mais pesadas que as de outros horários, às sextas-feiras, porque não tinha aula no dia seguinte.

Tive a sorte dessa passagem simbólica à idade adulta (uma entre muitas) ser ilustrada por uma novela desse calibre. A adaptação do livro de Jorge Amado por Walter George Durst era soberba. A direção de Walter Avancini, precisa e criativa. "Gabriela" arrancou aplausos até de intelectuais que, até então, torciam o nariz para os folhetins televisivos. Até hoje há quem diga que foi, nada menos, do que a melhor novela de todos os tempos.


Claro que, vendo as imagens antigas, tudo me parece meio tosco e pobrinho. A memória tem desses truques: o que era bom sempre é lembrado como ainda melhor do que realmente foi. Mas é importante lembrar que os cuidados de produção eram realmente excepcionais para 1975.

O elenco era simplesmente formidável, sem uma única nota falsa. Boa sorte aos atores da escalação atual, que terão competir com os registros de Paulo Gracindo, José Wilker e Armando Bogus em personagens icônicos (Wilker está na nova versão, mas num papel diferente).

E Sonia Braga, hein? Hoje ela parece uma escolha óbvia, mas na época não foi assim. Sonia teve que competir com várias outras atrizes. Até a branquíssima Renée de Vielmond foi cogitada para a protagonista.

"Gabriela" foi crucial para a carreira de Soninha e lhe abriu as portas para "Dona Flor" e o sucesso internacional. Mas o melhor papel feminino da trama é o de Malvina, a proto-feminista que entra em choque com a sociedade machista de Ilhéus (coisa que nem passa pela cabeça da passiva Gabriela) e que revelou Elizabeth Savalla.

Por tudo isto, é com um misto de curiosidade e apreensão que verei o primeiro capítulo do "remake" que vai ao ar hoje à noite. Já deu para perceber que cenários e figurinos estão belíssimos, e as imagens em HD tornam as antigas ainda mais parecidas com borrões. O elenco também parece maravilhosamente bem escolhido, do olhar de ressaca de Juliana Paes à aposta em Ivete Sangalo (sua Maria Machadão mal aparecia na versão original, onde era vivida pela bem mais velha Heloísa Mafalda).

Mas será que esta nova versão de "Gabriela" também vai borrar as lembranças maravilhosas que eu tenho da original? Duvido, Afinal, não tenho mais 14 anos.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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