Tony Goes

Wagner Moura, a Legião Urbana e o maior karaokê do Brasil

Fui assistir ao vivo ao "Tributo à Legião Urbana" e saí arrepiado. O que se viu no Espaço das Américas não foi um ator famoso interpretando um cantor já falecido, nem a apresentação de uma banda "cover". Foi além de uma homenagem: estava mais para uma catarse coletiva.

Pouca gente na plateia abarrotada deve ter visto a Legião original em ação. Renato Russo morreu há quase 16 anos, e já não se apresentava mais ao vivo há algum tempo antes de se ir. Aquela garotada não deve ter tido muitas oportunidades de gritar a plenos pulmões a letra dos hinos da banda, ainda mais na presença de seus membros remanescentes.

O repertório da Legião Urbana se descolou da época em que foi lançado e se transformou numa espécie de trilha sonora oficial da adolescência brasileira. Assim como os sucessos de Roberto Carlos, temas como "Tempo Perdido" ou "Será" não remetem mais ao ano em que surgiram, mas sim à idade que os ouvintes tinham quando os escutaram pela primeira vez.

Depois de tão criticado nas redes sociais, Wagner Moura teve um desempenho excepcional. Porque ele não estava ali para substituir Renato. Já tinha imitado o cantor em filmes como "VIPs", mas ontem sequer tentou.

Cantou, dançou, desafinou, teve problemas com o microfone. Não importa. Funcionou como o anfitrião de uma grande festa, não como o astro especialmente convidado. Regeu o coro, pois é tão fã da banda quanto qualquer um na audiência. Um holograma de Renato Russo não teria surtido o mesmo efeito.

Wagner estava empolgado e emocionado, e foi generoso o suficiente para perceber que a estrela ali não era ele. Nem mesmo a Legião ou a memória de Renato Russo: era o próprio público, extravasando seu amor por aquelas canções.

O cenário de Felipe Hirsch funcionou muito bem, com um telão servindo de teto para o palco e transformando-o no fundo do mar ou no "skyline" de uma grande cidade. Já a qualidade do som não foi tão boa: de onde eu estava, não se discernia muito bem um instrumento do outro. Espero que o pessoal que assistiu de casa tenha escutado melhor.

Wagner Moura e a Legião Urbana poderiam faturar uma grana preta se saíssem com esse show em turnê pelo Brasil. Mas há problemas legais que impedem a volta "full time" da banda, e os próprios músicos não têm interesse. Fora que o ator, que começa uma carreira internacional, anda com a agenda lotada.

Por isto, quem estiver em São Paulo hoje e tiver tempo e dinheiro, deve correr para o Espaço das Américas. Talvez seja a última vez que Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá se encontrem num palco para tocar este repertório. É a chance derradeira de participar de uma das maiores sessões de karaokê que este país já viu. Prepare-se para cantar muito.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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