Tony Goes

"SNL" estreia morno no tom e mal na audiência

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Adoro o "Saturday Night Live" original. Assisto sempre que posso, apesar do canal Sony exibi-lo por aqui com um certo atraso. Algumas das piadas chegam com o prazo de validade vencido, pois se referem ao noticiário de meses atrás. Mas a qualidade dos textos e dos atores costuma compensar.

O "SNL" é, de longe, a coisa mais importante que aconteceu no humor nos últimos 40 anos. Por lá passaram comediantes que depois se tornaram grandes estrelas do cinema, como Bill Murray, Eddie Murphy, Adam Sandler e Mike Myers. O programa também influenciou a televisão do mundo inteiro: aqui no Brasil, a "TV Pirata" pode ser considerada seu descendente direto.
Por tudo isto, eu estava ardendo de curiosidade para ver o "SNL" nacional, um projeto ambicioso que a Rede TV! tirou da manga para tapar o buraco que a saída do "Pânico" deixou em sua programação. No comando, ninguém menos que Rafinha Bastos --tão controvertido que dava até para ouvir a torcida de muita gente para que a estreia fracassasse.

Do ponto de vista da audiência, foi mesmo um fiasco. O Ibope mal chegou a um ponto. Muito longe dos dois dígitos que o "Pânico" vem marcando com frequência em sua nova casa, a Band.
Mas, e do ponto de vista artístico? O "SNL" brasileiro honrou seu DNA? Foi engraçado? Ou pelo menos foi ultrajante, dadas as credenciais de seu anfitrião?

Foi médio. Aficionados como eu devem ter achado bem estranho o grito em português de "ao vivo, de São Paulo, é o "Saturday Night Live"!". A abertura segue de perto a da matriz americana, mas com uma diferença crucial: a presença descarada do merchandising. E qual o sentido de reproduzir fielmente o cenário gringo, que remete à estação Grand Central de Nova York?
Os sketches também procuraram seguir o formato consagrado lá fora. O estilo do "SNL" é algo diferente dos humorísticos ao que o espectador brasileiro está acostumado: são quadros longos, recheados de citações e muitas vezes sem um final retumbante. Quem mais se aproxima por aqui dessa pegada são Marcelo Adnet e sua turma.

Aliás, consta que Adnet foi sondado para o "SNL", mas preferiu não romper seu contrato com a MTV. Ele seria uma escolha mais natural do que Rafinha, que não é exatamente ator. Mas a verdade é que este se saiu melhor do que o esperado, participando de quase todos os momentos.

Também esteve mais comportado do que de hábito. Algumas farpas escaparam no longo pedido de desculpas do monólogo de abertura, que citou antigos alvos como Ronaldo Fenômeno e Preta Gil (mas não Wanessa Camargo, provavelmente por razões judiciais). Luciana Gimenez, uma das primeiras-damas da Rede TV!, foi uma das vítimas das notícias falsas do "Weekend Update". No resto do tempo, Rafinha estava quase irreconhecível.

O resto do elenco parece promissor e merece ser melhor aproveitado no futuro (apesar do nível de feiura ser um dos mais altos que eu já vi). Já que as mudanças serão inevitáveis depois do desastre no Ibope, sugiro um pouco menos de escatologia. Houve um excesso de sangue e excrementos na estreia.

E quem serão os próximos apresentadores? O "SNL" chama sempre uma celebridade diferente por semana, que participa de muitos quadros onde chega a ser ricidularizada. Aqui, além das dificuldades contratuais (duvido que outros canais liberem suas estrelas), há também uma barreira cultural. Nossos famosos costumam ser hipersensíveis: preferem entrar com processos na Justiça do que tirar sarro de si mesmos.

Os obstáculos são enormes, mas prefiro dar um crédito. Rafinha Bastos é um sujeito esperto e sabe que há muita coisa em jogo. Os americanos também não vão deixar que sua franquia vá para o espaço rapidamente. O "SNL" brasileiro ainda não está pronto. Vamos ver como fica.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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