Tony Goes

Leilão em São Paulo encerra o legado de Clodovil

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Quando eu fazia faculdade de manhã, no começo dos anos 80, saía correndo quando acabava a aula para conseguir ver o Clodovil. O estilista já era famoso bem antes daquela época, mas estava arrebentando no programa "TV Mulher" (Globo).

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O que era para ser uma consultoria de moda logo se transformou num quadro de humor ferino. "Gorda e de vermelho, você vai ficar parecendo um caqui", disse ele a uma pobre telespectadora. E ainda encerrava contando piada de bicha.

O mesmo tipo de piada que Clodovil detestava que fizessem com ele. Algo até surpreendente para quem posava de sofisticado, mas vai saber o tipo de gozação que ele teve que suportar na infância.

Todos que o conheceram dizem a mesma coisa: era uma pessoa difícil, temperamental, que queimava as pontes atrás de si. Clodovil saiu do "TV Mulher" brigado de morte com as duas outras estrelas do programa, a apresentadora Marília Gabriela e a então apenas sexóloga Marta Suplicy, e nunca mais fez as pazes com elas. Também se desentendeu com a direção de todas as emissoras por onde passou.

No final da vida, sem espaço na telinha, tentou a sorte na política. Foi eleito deputado federal por São Paulo com uma votação recorde, mas não conseguiu fazer muita coisa com o mandato além de redecorar seu gabinete em Brasília.

O primeiro parlamentar assumidamente gay do Brasil tinha alergia à luta pelos direitos dos homossexuais e não mexeu uma palha para avançar a causa. Recebeu o apelido de "Clodovéia" e morreu amargurado, cheio de dívidas.

Foi justamente para saldar essas dívidas que foram leiloadas ontem dezenas de peças de seu acervo pessoal. A renda alcançada foi mais que o dobro do que os organizadores esperavam, o que comprova o fascínio que Clodovil ainda exerce sobre algumas pessoas.

Impossível não lembrar do leilão que Pierre Bergé promoveu depois da morte de seu companheiro Yves Saint-Laurent. Com a diferença de que o costureiro francês morreu riquíssimo: Pierre só queria apagar algumas das lembranças que o falecido espalhara pelas muitas residências do casal.

O leilão de ontem em São Paulo também vai servir para que desapareçam do olhar do público muitos dos souvenirs materiais que Clodovil deixou para trás. Porque seu legado como estilista quase que já se desfez inteiramente.

Culpa dele mesmo, que foi abandonando a moda aos poucos para se dedicar à carreira de apresentador. Mas culpa também da nossa cultura, que enterra grandes nomes ainda em vida e oblitera seus vestígios depois que morrem.

De Clodovil vai sobrar a lembrança do gay perpetuamente indignado, a "bicha louca" do inconsciente coletivo do Brasil. E, desde a noite de ontem, alguns objetos preciosos na posse de seus novos donos.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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