Renato Kramer

'Acho que humorista não deve se preocupar com politicamente correto', diz Ary Toledo

"O Ary Toledo foi um dos meus primeiros convidados lá do 'Agora é Tarde' na Band", confidenciou Danilo Gentili no "The Noite" (SBT) desta quinta-feira (30) —"e ele me falou que achava que isso que eu estava fazendo ia dar muito certo. Eu nunca esqueci, muito obrigado!", agradeceu o apresentador.

"Qual é o segredo para se contar uma boa piada?", quis saber Gentili. "Não se conta piada, piada se interpreta. Contar até um papagaio se você ensinar ele conta, uma criança conta —não basta contar, tem que interpretar. O verdadeiro humor é aquele que você consegue estabelecer logo de cara numa inter-relação entre publico e artista", declara o comediante do alto dos seus 52 anos de carreira.

O show com o qual está atualmente em turnê pelo país se chama "5.2" —comemorando o seu tempo de estrada. "Idade eu tenho mais: 77, modelo 78", brinca Ary que admite a dificuldade de ver reconhecida a autoria das piadas: "Piada não tem dono. Você até pode fazer uma piada sua, o difícil é reconhecer a paternidade. Piada é que nem peido em elevador: alguém fez mas ninguém sabe quem foi!", conclui.

Crédito: Avener Prado/Folhapress Retrato do comediante Ary Toledo, fotos feita durante entrevista no seu flat em São Paulo-SP
Retrato do comediante Ary Toledo, fotos feita durante entrevista no seu flat em São Paulo-SP

O humorista confessa fazer piadas de português mesmo em Portugal. "E como você faz?", questiona Danilo. "Ah, eu uso uma técnica: eu digo que vou contar uma piada de japoneses —um que se chamava Manoel e o outro Joaquim!", explica Ary.

Na sequência sobrou para o apresentador da RedeTV!: numa piada sobre um português que precisava fazer exame de fezes, o indivíduo com prisão de ventre "com muito esforço conseguiu botar pra fora o programa do João Kleber!". Plateia, banda, assistentes e apresentador caem na gargalhada.

Impressionado com o 'timing' (tempo de comédia) do seu convidado, Danilo perguntou o que seria mais importante ao contar uma piada: a interpretação ou o tal 'timing'. "As duas coisas", respondeu Toledo. "O importante da piada é a interpretação baseada sempre no 'timing'. O 'timing' é que conduz, e pra isso não existe uma fórmula. Isso é o próprio humorista que descobre, cada um tem o seu", assegura o comediante, que já fez shows nos Estados Unidos e no Japão.

Sobre como começou a sua carreira de comediante, Ary conta que quem o incentivou a fazer humor foi o saudoso diretor do grupo de teatro de Arena Augusto Boal, do qual Ary fazia parte como ator. "Eu queria ser humorista, mas não sabia que caminho seguir, então fui ser ator. Quando era menino e minha mãe me perguntava o que eu queria ser eu já respondia que queria contar piada", confidencia o ator que tem 60 mil piadas em seu acervo.

Ary pega do violão e relembra esse seu primeiro e maior sucesso, 52 anos depois. Emocionante.

"Você nota que o humor regrediu? Antes se fazia piada de tudo e todo o mundo entendia que aquilo era piada, não era pra ofender. Hoje você tem que tomar cuidado com o que você fala, se não você é linchado... O que que está acontecendo?", colocou Danilo.

"É o negócio do 'politicamente correto'. Eu acho que o humorista não deve se preocupar com isso, acho que ele deve se preocupar em levar o riso às pessoas. Esse julgamento do que é ou não politicamente correto tem que deixar para a justiça, se houver processo. Eu nuca tive um processo! Tô esperando um, quem sabe ainda aparece aí!", conjeturou Toledo, que foi preso quatro vezes por suas piadas durante a ditadura militar.

"A sorte é que o coronel que me entrevistou era meu fã, mas reclamou que eu ficava trabalhando com os comunistas do Arena —quem trabalhava em teatro pra eles eram todos comunistas, e você sabe: comunista naquela época comia criancinha— hoje é o Rafinha Bastos!", ironiza Ary, fazendo todos gargalharem novamente.

Antes de encerrar, a plateia sugere temas para o comediante improvisar uma piada sobre: palmito, 45 anos de casado e Palmeiras Campeão. Toledo tirou de letra.

Para saideira, Gentili pede que Ary conte uma piada de 'gay'. "Você percebeu como tá aumentando o número de gays? Eu não entendo, esse bicho não se reproduz, como é que aumenta assim, né,?!", solta Toledo, que tem shows no interior de São Paulo: no dia 9 de maio em Mauá e nos dias 15 e 16 de maio em Ribeirão Preto.

Renato Kramer

Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Em São Paulo, formou-se como ator na Escola de Arte Dramática (USP). Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Já assinou a coluna "Antena", na "Contigo!", e fez críticas teatrais para o "Jornal da Tarde" e para a rádio Eldorado AM. Na Folha, colaborou com a "Ilustrada" antes de se tornar colunista do site "F5"

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