Renato Kramer

Marcelo Serrado comove na pele do autista Raymond em "Rain Man"

O ator Marcelo Serrado, prestes a reviver o seu consagrado personagem Crô (Fina Estampa) no cinema, emociona vivendo um autista na peça "Rain Man".

O desafio era duplamente perigoso: escorregar para o estereótipo e deixar muito a desejar em relação à impecável interpretação do Raymond de Dustin Hoffman, no filme ganhador de quatro Oscar em 1988. Uma estatueta foi exatamente para Mr. Hoffman.

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Mas Serrado construiu um tipo não apenas verossímil como cativante, e, sinceramente, nem por uma vez me peguei comparando-o com a performance de Hoffman. O Raymond de Marcelo independe do filme, embora conte a mesma história.

Rafael Infante vive o inicialmente frio e calculista irmão mais moço de Raymond, que se aproxima dele apenas para tentar extorquir a metade da herança que seu pai deixara apenas para Raymond.

Até então, Charlie (Rafael Infante) nem havia se dado conta de que tinha um irmão, muito menos que ele fosse autista e vivesse fechado numas instituição. Aos poucos, o que era apenas interesse financeiro vai se tornando um laço afetivo muito forte entre os dois. Charlie, que só quer se dar bem na vida material, acaba por receber uma grande lição de amor do irmão com necessidades especiais.

Infante vive Charlie com extrema intensidade. É ele quem comanda todo o movimento do espetáculo e o faz com garra e muita energia. É bem verdade que, por vezes, o ator extrapola e escorrega para um certo exagero --reestabelecendo o equilíbrio assim que começa a aprofundar a sua relação com o até então irmão desconhecido.

Roberto Lobo, Jaime Leibovitch e Sara Freitas completam o elenco. Fernanda Paes Leme, que normalmente vive Susana, a namorada de Charlie que acaba se encantando com a pureza de Raymond e até o ensina a beijar, não participou do espetáculo desta noite. Não recebi informação sobre a atriz que a substituíra.


A direção consegue um bom resultado no cerne da questão que é a aproximação difícil e delicada dos dois irmãos tão drasticamente diferentes. Exageros à parte, a parceria de Rafael Infante com Marcelo Serrado tem uma excelente química. A passagem de quem só via o irmão autista como um trampolim para alcançar dinheiro, para aos poucos sentir nele uma pessoa que não só lhe importa como já lhe é cara, é realizada com sensibilidade por Rafael Infante.

Marcelo Serrado acerta do início ao fim. Postura, voz e atitudes bem elaboradas são apresentadas e mantidas com coerência, alma e verossimilhança. Para quem o tem ainda muito presente na figura do poderoso Crô, vai encontrar literalmente outra pessoa, sem nem um traço do mordomo almofadinha. E versatilidade é sempre um quesito que tem lugar de honra na carreira de um grande ator.

"Rain Man", de Dan Gordon, traduzido por Miguel Paiva e dirigido por José Wilker, está em cartaz em São Paulo, no Teatro Vivo, até 2 de junho.

Renato Kramer

Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Em São Paulo, formou-se como ator na Escola de Arte Dramática (USP). Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Já assinou a coluna "Antena", na "Contigo!", e fez críticas teatrais para o "Jornal da Tarde" e para a rádio Eldorado AM. Na Folha, colaborou com a "Ilustrada" antes de se tornar colunista do site "F5"

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