Cinema e Séries

Diretor de 'Amazônia Groove' diz que filme é menos sobre música e mais espiritual e sensorial

Famosa Dona Onete e figuras como Gina Lobrista estão no longa

Cena do documentário

Cena do documentário "Amazônia Groove" Divulgação

Fabiana Schiavon
São Paulo

O sucesso da banda Calpyso, de Gabi Amarantos na abertura de “Cheias de Charme” (2012, Globo) ou o carimbó mostrado na novela “A Força do Querer” (2017, Globo) são alguns exemplos de como a música do Pará vem conquistando seu espaço no cenário musical brasileiro. 

Esse universo vasto não caberia por completo em um filme. Bruno Murtinho, diretor do documentário “Amazônia Groove”, em cartaz nos cinemas, escolheu um recorte: o espiritual. Com belas imagens da floresta, cores e sons, Murtinho investigou as origens da música desse estado que respira ritmo.  

Em contato direto com a natureza mais profunda, artistas como o rapper MG Calibre, o violonista Sebastião Tapajós e a cantora Dona Onete colocam nas suas músicas o que ouvem nas matas –que pode falar de amor até dar um grito de socorro. 

Bruno Murtinho foi convidado a digirir o filme pelo produtor musical Marco André, idealizador do projeto. A primeira ideia era falar sobre a música do Pará. Murtinho, que é budista e tem forte relações com a espiritualidade, rebateu os produtores. "Falei que esse filme não era sobre música. Porque a cultura das pessoas que vivem na região amazônica é permeada pela música e também pela espiritualidade. Uma não vive sem a outra. Achei que eles iriam me demitir, mas deu certo", brinca o diretor.

Além da trilha sonora amazônica, o documentário pega o público pelas imagens. Cantorias aos santos pelos rios e a captação de uma pequena orquestra tocando no meio da selva é uma das pérolas do longa. "Procurávamos a tradução visual de um sentimento, e eu pensava qual seria a imagem que traduziria esse estado de alma ou essa emoção, por exemplo. Acabou sendo um filme sensorial”, defende Murtinho. 

Músicos já conhecidos como o compositor e violonista Sebastião Tapajós, e  o multi-instrumentista Manoel Cordeiro, que já fez turnês com Fafá de Belém e o filho, Felipe Cordeiro, se misturam a figuras únicas, descobertas no filme, como Gina Lobrista. A cantora passeia pelo local histórico Mercado Ver-o-Peso acompanhada de uma caixa de som, cantando e vendendo os seus CD’s. Ele é parada para abraços e autógrafos (assista vídeo abaixo).

Impossível não se encantar com a Dona Onete, que anima qualquer festa com seus 79 anos. Como a própria artista descreve no filme, ela ouve dos rios as músicas que canta. Tudo vai fluindo e a banda dela dá um jeito de acompanhar. Já o tecnobrega é representado por Waldo Squash, DJ da banda Gang do Eletro. Tem um Pará para cada gosto musical.

"Escolhemos nove artistas, mas poderiam ser 90. Eles só não fazem músicas diferentes de tudo, mas a espiritualidade deles é também muito particular. Cada um tem uma visão diferente do significado dos rios e das ‘encatarias’, como eles dizem. Com essa mistura, chegamos no tempero perfeito, que deixou tudo saboroso", afirma o diretor. 

AMAZÔNIA QUE ENCANTOU OS GRINGOS

O documentário venceu o prêmio de melhor fotografia do festival americano South by Southwest (SXSW) deste ano, no Texas. Claro que o nome “Amazônia Groove” atraiu atenção de todos os estrangeiros que estavam no festival. “Foi um sonho esse prêmio, concorri com produções feitas com estrelas como Woody Harrelson”, conta Murtinho.

O diretor acompanhou de perto a reação desse público. “Quando eles ouvem uma frase como ‘eu peço licença para as sereias quando entro no rio, de Mestre Damasceno, você estica a fantasia deles sobre o que é a Amazônia”, conta o diretor. “A gente faz a brincadeira do copo, visita Umbanda no dia e vai à missa no outro. Um alemão ou um japonês fica sem entender o que é fantasia e o que é real." 

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