Cinema e Séries

Christian Bale e Amy Adams se tornam o casal Cheney em 'Vice', filme que estreia no Natal

Cinebiografia tem Bale como vice-presidente dos EUA de 2001 a 2009

Christian Bale e Amy Adams
Christian Bale e Amy Adams - Rebecca Cabage/Invision/AP
Lindsey Bahr
Beverly Hills, Califórnia

Christian Bale tinha uma escolha a fazer. Ele estava hesitando quanto à proposta nada convencional do diretor Adam McKay para que interpretasse Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos entre 2001 e 2009, em uma cinebiografia, e o prazo para decidir estava se esgotando.

"Achei que seria impossível, e não queria ter de trabalhar tanto", disse Bale recentemente, em Beverly Hills. "Eu só pensava que aquilo ia ser um trabalho enorme. E perguntava a mim mesmo se eu fazia ideia de o quanto seria difícil. Eu não queria ter todo aquele trabalho, na verdade".

Mas quando começou a pesquisar sobre Cheney e fez alguns testes iniciais de maquiagem, ficou obcecado. De repente, ver seu nome ao lado do nome de Cheney já não parecia "tão completamente insano". Ele sentiu que precisava dizer sim. Além disso, comentou, rindo, "há sempre alguma atração na ideia de, tipo, acabar com minha carreira de uma vez".

Por isso Bale e Amy Adams, coestrela frequente de seus filmes ("O Vencedor", "Trapaça") decidiram fazer o impossível e se transformar nos enigmáticos Dick e Lynne Cheney, em "Vice", de McKay.

O filme, polêmico e conflituoso, chega aos cinemas no dia do Natal e acompanha os Cheney de suas origens modestas até Washington, onde Dick Cheney se tornaria uma das figuras mais poderosas e influentes do país. Para Bale, Cheney é um homem que floresce ao servir alguém, seja Donald Rumsfeld ou George W. Bush, mas sua maior lealdade é para com sua mulher.

O filme propõe uma dinâmica de poder shakespeariana, com Lynne puxando os cordões nos bastidores. "Lynne era a ambição e a força motora", disse Bale. "Nos tempos que eles viveram, Lynne não teria sido capaz de atingir os objetivos que desejava por conta própria. Precisava de um homem para isso, e assim Dick se tornou o veículo por meio do qual ela realizou suas ambições".

Adams também ficou fascinada pela iniciativa e pela inteligência de sua personagem, e percebeu que precisava parar de pensar nela como simplesmente "a mulher de Dick Cheney". Adams disse que "minha filha me perguntou quem eu interpretaria, e eu disse que faria o papel da mulher de Dick Cheney. E ela questionou por que sempre interpreto a mulher ou namorada de alguém. Com isso, percebi que tinha designado para a personagem uma posição subordinada à de Dick Cheney; isso mudou minha visão sobre ela. E eu comecei a pensar que na verdade estava interpretando Lynne Cheney. Ela é casada com Dick Cheney, mas tem identidade própria".

Nenhum dos dois atores se encontrou com o casal, cujas vidas durante quatro décadas eles interpretaram. Bale queria, mas foi "aconselhado a não tentar".

"Foi uma daquelas situações em que, se você se encontrar com alguém por acaso, tudo bem, pode conversar à vontade, mas se você procurar a pessoa, a situação legal é outra", ele disse. Mas os dois tinham muitos recursos para ajudar em seu trabalho, entre os quais relatos em primeira mão de pessoas que conheciam os Cheney, e a internet.

O celular de Bale ainda está repleto de vídeos e fotos de Cheney, em companhia de imagens da mulher e filhos do ator. "Ainda não consegui me livrar do material", disse Bale, rindo por ter se apegado àquelas lembranças.

Aprender sobre Dick e Lynne Cheney é uma coisa, claro, mas Bale e Adams também tinham de se tornar parecidos com eles, para que "Vice" funcionasse. Para Bale, o papel envolveu ainda outra transformação física significativa, com dentes falsos, um ganho de peso de 18 quilos, um pescoço "cinco centímetros mais gordo" e quatro horas de trabalho de maquiagem a cada dia,

"Essas coisas me ajudam a entrar no personagem, mas não me ajudam a viver uma vida longa. Preciso parar com isso, em algum momento. Mesmo", disse Bale. Ele costumava rir de pessoas que optam por uma roupa com enchimento para interpretar um personagem gordo, em vez de fazerem o trabalho do jeito certo, mas descobriu que foi exatamente isso que Gary Oldman fez ao interpretar Winston Churchill em "O Destino de uma Nação", papel pelo qual o ator ganhou um Oscar. Mas àquela altura ele já tinha engordado 12 quilos, e decidiu que o melhor seria ir até o fim.

Adams também teve de ganhar algum peso. "Foi um jeito útil de conseguir aquele jeito grave de Lynne", disse Adams. "Ela me parecia uma pessoa muito terra". Uma coisa que foi difícil para Adams foram as longas horas de maquiagem. "Um dia eu estava tão cansada que a sensação era a de estar em barco; eu estava sentada lá, tínhamos trabalhado até de madrugada, e comentei que eu não sabia como Christian consegue fazer essas coisas toda hora. Eu disse que o admirava, e ele respondeu que nem pensava no assunto", conta a atriz. "Era exatamente o que eu precisava ouvir naquele momento".

Embora o filme em si possa ser político, Bale e Adams preferem não comentar ou julgar o caráter e as posições políticas dos personagens. "Não cheguei para o trabalho trazendo minhas opiniões. Usualmente não abordo um personagem de maneira a julgá-lo", disse Adams. "Porque isso me trava na criação do personagem". Bale acrescentou que "se você está nos vendo na tela e sabe a posição política de Amy sobre o que Lynne estava dizendo, e sabe o quanto eu concordo ou discordo com aquilo... isso realmente arruína o trabalho todo".

E a história talvez seja mais complicada do que um resumo em linhas partidárias permitiria contar. Bale disse que, se removermos "as coisas imensamente horríveis", como a guerra do Iraque e o uso de técnicas de tortura em interrogatórios, "o que resta é mais ou menos uma história de amor".

"Você fica com um cara incrivelmente dedicado que reconhece que não teria se tornado a pessoa que é sem a ajuda de sua mulher. Você tem um homem que, contrariando a sua época e o que era popular em seu partido, aceitou completamente sua filha Mary quando ela saiu do armário. Ele nem ligou para o que os outros podiam pensar. E acho que isso é uma grande parte do que torna a história dele, a história de qualquer pessoa, interessante", disse Bale.

"Existe um desejo frequente de transformar todo mundo em super-herói, de fazer de uma pessoa um completo herói ou completo vilão, e ninguém é assim... Assim, o que importa é tentar encontrar esse equilíbrio, com sorte sem injetar qualquer coisa de meu no processo".

"Isso faz sentido?", Bale acrescentou. "Ou parece muito pretensioso?"

AP

Tradução de Paulo Migliacci

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