Celebridades
Descrição de chapéu The New York Times

Stephenie Meyer diz que fãs não vão encontrar exatamente o que esperam em 'Midnight Sun'

Autora não pretende continuar saga 'Crepúsculo' sob perspectiva de vampiro

Os atores Robert Pattinson e Kristen Stewart, em cena do filme "Crepúsculo-Amanhecer Parte 2" - Divulgação
Concepción de León
Nova York

Quando Stephenie Meyer decidiu lançar “Midnight Sun” (Sol da meia-noite, em português), livro que conta a mesma história que o romance “Crepúsculo”, mas do ponto de vista do vampiro Edward Cullen, ela imaginou que ninguém mais estivesse interessado.

Ela tinha planos de lançar o livro há um bom tempo, mas suspendeu a publicação depois que diversos capítulos vazaram na internet em 2008. Agora, passada mais de uma década, sua legião de fãs enfim poderá ler a história. A esperança dela era um lançamento discreto, mas em maio, quando ela anunciou a data de lançamento para esta terça-feira (4), tantos leitores acessaram seu site que ele caiu rapidamente.

“Isso é muito lisonjeiro, mas, ao mesmo tempo, me causa nervosismo”, diz Meyer, em entrevista. “Tenho certeza de que as pessoas não vão encontrar exatamente o que elas esperam. Porque, com o tempo todo que passou, elas criaram expectativas sobre o que a história seria, e ninguém no mundo conseguiria ficar à altura dessas expectativas”.

A saga "Crepúsculo", que acompanha o romance entre a adolescente Bella Swan e o secular vampiro Edward Cullen, se transformou em marca multimilionária depois do lançamento do primeiro livro, em 2005, e resultou em cinco filmes e milhões de fãs dedicados no mundo inteiro –muitos dos quais vinham implorando por “Midnight Sun”.

Maren Abercrombie e Emily Mensing, apresentadoras do podcast “Remember Twilight?”, são duas dessas fãs. Mensing diz que “sinto como se nós é que tivéssemos forçado o lançamento, honestamente”.

Depois de ler a versão do livro que vazou em 2008. Abercrombie disse que estava ansiosa para que Meyer lançasse uma versão concluída. “Bella é bacana, todo mundo mais é bacana. Mas para mim o personagem mais interessante em ‘Crepúsculo’ é Edward”, ela disse. “E ‘Midnight Sun’ completo era tudo que eu queria”.

Antes da publicação, Meyer conversou sobre o estresse de lançar um livro durante a pandemia, o que os leitores podem esperar e por que eles não devem aguardar uma nova história narrada na voz de Edward. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

*

Por que você decidiu publicar o livro agora?
Porque terminei de escrever. O motivo para que ele não tenha sido publicado antes era que não estava pronto e, quando vi a luz no fim do túnel –quando vi que conseguiria terminar– comecei imediatamente o processo de publicação, porque sabia que havia muita gente esperando, gentil e pacientemente, mas também com muita ansiedade, por isso.
E aí veio a Covid-19. E agora, lançamos ou não? Rapidamente se tornou óbvio que não havia um final real à vista, para a Covid. Fico empolgada quando tenho um livro para ler, agora, porque não há muitas outras coisas com que me empolgar. E minha esperança era que as pessoas sentissem a mesma coisa que eu.

O que aconteceu, anos atrás? Por que você decidiu adiar a publicação do livro sem previsão de data?
Não sei exatamente o que aconteceu, e essa é uma das razões para que a coisa tenha me abalado. Não creio que o que aconteceu tenha sido por má intenção. Algumas pessoas a quem pedi que lessem o livro copiaram o texto antes de me devolvê-lo. O que não é tão assustador quanto imaginar que alguém estava lendo coisas no meu computador. Isso me assustou bem mais.
E na época foi difícil, porque ninguém gosta de ter um rascunho inicial submetido a críticas. Você mesmo sabe que é capaz de fazer melhor. Àquela altura, você está simplesmente jogando na página as coisas que traz na cabeça. Aconteceu há tanto tempo. Foi como que um tropeço, eu diria.
O motivo real para que eu tenha demorado tanto a escrever o livro é porque era um trabalho longo e muito dolorido. No caso de alguns de meus outros livros, foi como se eles se escrevessem sem ajuda, e meu trabalho fosse simplesmente o de anotar direitinho o ditado. Esse tipo de escrita é divertido e empolgante. Já no caso desse, foi mais como se cada palavra fosse uma luta.

O que os leitores podem esperar desse novo episódio da história?
As coisas que mais aprecio nele são... gostei de a narrativa não estar sendo realizada por um ser humano. Gosto dessa experiência, deixar de lado a humanidade e ser outra coisa.
Creio que a parte que as pessoas não esperam é que Edward é um personagem muito ansioso. Escrevê-lo me deixa mais ansiosa, e esse é um dos motivos por que era difícil estar naquela história. A ansiedade dele combinada à minha era possante. Ele começa bem confiante, mas, nossa, termina arrasado. Bella realmente o despedaça. Ele parece ser muito forte em “Crepúsculo”, muito seguro de si, quando, na verdade, esse jamais foi o caso.

Sem “spoilers”, há alguma coisa que você possa contar sobre o que os leitores descobrirão a respeito de Edward ou sobre novas perspectivas que eles poderão adquirir sobre alguns momentos da história de Crepúsculo?
Olha, é difícil imaginar “spoilers” nesse livro, porque o maior deles é: Edward se apaixona por Bella. Todo mundo sabe disso, e assim é difícil encontrar um “spoiler”. O que as pessoas vão encontrar de novo é, como eu disse, o ponto de vista não humano, e o que se passa quando eles estão separados. As melhores partes para escrever, de longe, eram aquelas em que Bella não estava presente e eu não estava presa a um determinado conjunto de diálogos e ações. Era quando eu sentia que ele podia ser mais ele mesmo.
Algumas pessoas vão gostar mais de alguns personagens, e menos de outros, porque Edward não só passa mais tempo com eles mas lê seus pensamentos o tempo todo. E uma reação reflexa para ele, algo que ele não consegue controlar, e assim você tem não só um retrato das pessoas, mas o quadro completo, o tempo todo. Dá para formar uma impressão de como seria difícil ter vozes alheias em sua cabeça o tempo todo.

Você planeja escrever toda a série narrada do ponto de vista de Edward?
Não, de jeito nenhum. E a experiência de escrever esse livro não foi superagradável. Assim, não, eu não tenho vontade de fazer isso –especialmente porque “Lua Nova” seria um pesadelo de depressão e vazio. Creio que esse livro ofereça uma sensação suficiente do que é ser Edward, e assim a pessoa pode apanhar os outros livros e saber o que estaria se passando na cabeça dele diante daquelas histórias.

Muita coisa mudou no mundo desde que o primeiro livro foi publicado em 2005, o que inclui o movimento #MeToo, que lançou uma luz nova sobre muitas de nossas instituições culturais mais amadas. Você já refletiu sobre como a percepção quanto à relação entre Bella e Edward poderia ser diferente hoje, quase duas décadas mais tarde?
Desde o começo, encontrei reações de pessoas que não gostaram nem um pouco de algumas das coisas que viram, o que posso compreender. Não sei se “Midnight Sun” vai tornar as coisas melhores ou piores, para elas. Sinto que o livro oferece, sobre Edward, a percepção de que não se trata de alguém que segue as regras humanas. E o pior de tudo, alguém poderia dizer, não está em que ele a espione. Ele na verdade é um animal muito curioso que não pensa na situação dessa maneira. Mas o problema real é que ele assassinou um monte de gente. Essa é a pior coisa, certo, que ele seja um assassino múltiplo?
E, uma vez mais, isso vem do fato de que estamos falando de um livro de ficção que nem mesmo se passa em um mundo realista. É fantasia, e você tem um personagem que não é humano e não é parte das coisas sociais que fazemos. Ele é diferente. Isso não muda o fato de que, para alguém que passou por algo terrível, a história pode causar sensações horríveis, e me sinto mal a respeito, porque para mim se trata de apenas uma fantasia, que não existe. Não foi minha experiência, e por isso a sensação para mim é que se trata de outro mundo.

P. Como vem sendo o processo de lançamento do livro?
Muito insano e desgastante. Gosto de ter tudo planejado, sabido com antecedência, o que vou ter de fazer, para onde preciso ir, para que eu possa planejar tudo, estou falando sério, com seis meses de antecedência. Só assim fico feliz. Agora, não sabemos o que estamos fazendo. Tínhamos planos, estávamos entusiasmados, e os planos desabaram. Creio que vamos fazer muita coisa virtual. Isso será divertido, provavelmente, mas para mim parece insuficiente. Os fãs estão tão entusiasmados para fazer alguma coisa, qualquer coisa, e não é algo que gente possa lhes dar. Isso é um pouco frustrante.

Você escreveu em seu blog que livros são sua principal fuga, no momento. O que você está lendo?
O último livro que amei de verdade –são livros curtos, você pode devorá-los rapidinho– foi uma série de ficção científica chamada “The Murderbot Diaries”. O primeiro livro se chama “All Systems Red”. É ótimo. É sobre um cyborg que não é homem nem mulher, e que supostamente está sob o controle de alguém mas tem autonomia. Mas eles só usam essa autonomia para assistir TV, e o pobre cyborg assassino sofre de ansiedade social, não consegue olhar para os outros nos olhos, e quer que o deixem sozinho para ver TV. Realmente me identifiquei com o personagem [risos].

O que você planeja escrever a seguir?
Tenho três candidatos no momento. Trabalho neles ocasionalmente. Quando “Midnight Sun” sair e a correria do lançamento tiver passado, verei qual deles me prende. Gostaria de escrever alguma coisa de fantasia- fantasia, em que o leitor precisa de um mapa no começo do livro, mas teremos de esperar para ver se esse é o escolhido.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem