Celebridades

Bono fala de eleições no Brasil, de seu glaucoma e da 'invasão' no iTunes

"Ganhe quem ganhar, existe uma questão importante para o futuro do Brasil neste momento", diz Bono, referindo-se às eleições presidenciais. "Vocês têm um país poderoso, admirável, e é isso que deve mover vocês daqui para frente: transparência", completa o líder do U2, numa entrevista que é o próprio modelo dessa atitude, ao mesmo tempo simples, pop e algo messiânica.

Em breves 20 minutos, Bono, 54, falou sobre tudo —desde como acompanha, pela sua ONG, One, o desenvolvimento social do Brasil ("Trabalhamos com a ideia de melhorar a vida dos mais pobres") até um de seus traumas mais íntimos, a morte da mãe, quando era adolescente ("Como bons irlandeses, nossa família não discute muito isso").

Passou por temas atuais, como as redes sociais (não participa), e polêmicos (a confusão que criou quando o novo álbum, "Songs of Innocence", foi disponibilizado para todos os usuários do iTunes).

Com uma informalidade surpreendente, o cantor foi honesto até mesmo sobre sua saúde. Bono tem glaucoma.

Depois de anos convivendo com o problema, que causa comprometimento visual e pode levar à cegueira, o músico diz que finalmente se sente à vontade para falar sobre isso. "Passei anos sem saber o que eram os borrões que se misturavam à minha visão", conta.

"O glaucoma é uma condição curiosa porque não afeta a qualidade do que você vê -sempre enxerguei bem, então o problema não era diagnosticado. Mas as distorções de luz apareceram logo cedo e, com isso, os óculos. Não era uma questão de estilo, mas uma necessidade." De fato, lentes escuras -às vezes, exageradas- são sua marca registrada.

"Songs of Innocence" é o 13º álbum de estúdio da banda e tem um conjunto de músicas que, em breve, serão cantadas em estádios no mundo todo -a banda deve excursionar por vários países, inclusive o Brasil, no ano que vem. Quem um dia comprou música numa bolacha de vinil -formato que se chamou LP (ou "Long Play") —vai reconhecer o aspecto nostálgico desse trabalho, sutilmente dividido em "Lado A" e "Lado B".

Uma geração inteira -talvez duas- não conheceu o simples gesto de "virar o disco". "Innocence", como uma audição mais atenta revela, traz essa divisão. As cinco primeiras músicas —"The Miracle (of Joey Ramone)", "Every Breaking Wave", "California (There Is No End to Love)", "Song For Someone", e "Iris (Hold Me Close)" —formam um conjunto tão poderoso que é preciso tomar fôlego para ouvir a outra metade.

"As bandas começaram a fazer discos longos demais", diz Bono, sem esquecer que o próprio U2 já tem um álbum duplo na sua história ("Rattle and Hum", de 1988). "Sobretudo no auge dos CDs, quando era possível espremer mais músicas num pequeno formato. As pessoas começaram a se sentir enganadas, pagando por um disco que só tinha um par de canções boas e um monte de faixas que não queriam dizer nada."

GENEROSIDADE?

Ao dizer isso, Bono curiosamente pergunta o preço médio de um CD —que pode custar até uns 40 reais (ou mais). O engraçado é perceber que a dúvida vem justamente de um artista que acaba de ter seu trabalho mais recente oferecido de graça pela Apple, que pagou uma soma não revelada à banda.

Num gesto inovador e arriscado, um belo dia todos os usuários do iTunes —a loja virtual da Apple que é a principal distribuidora de música digital- acordaram com "Songs of Innocence" no seu cardápio musical. Genial, certo? Mas e os que não são fãs da banda?

De alguma maneira, Bono e seus companheiros, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen (que também participaram da entrevista), se esqueceram de que talvez existissem pessoas no planeta que não estavam esperando por um novo trabalho deles.

Parte dos usuários do iTunes ficou incomodada em ganhar um disco que não pediu. A "revolta" foi tão grande que o próprio iTunes teve que desenvolver um aplicativo para que as pessoas pudessem apagar "Songs of Innocence" de suas bibliotecas virtuais.

Bono chegou a fazer um mea culpa pela "intromissão", no Facebook da banda: "Desculpe por isso. Nós nos deixamos levar, artistas são suscetíveis a esse tipo de coisa. Uma gota de megalomania, um toque de generosidade, um desejo de autopromoção e um medo de que as músicas com as quais vivemos tanto tempo não sejam nunca ouvidas".

Em Londres, o cantor amenizou o discurso: "Antes de começar a compor essas novas faixas, nos questionamos sobre fazer um novo álbum e por que as pessoas o ouviriam", diz. "Perguntamos: por que fazemos isso, o que queremos da vida? Talvez fosse mais fácil fazer uma terapia", brinca. "Mas achamos mais produtivo colocar essas questões num disco e dividi-las com todo mundo."

"Tínhamos que tentar alguma coisa diferente. Nossa preocupação era sermos ouvidos", diz The Edge. O baixista Adam Clayton se pergunta: "Como as novas gerações descobrem música? Qual o melhor caminho?" Ao denunciarem essa insegurança -impensável há até pouco tempo para artistas poderosos como esses-, os membros da banda talvez nunca tenham se mostrado tão vulneráveis. Algo que faz sentido num álbum tão confessional.

"Queríamos explorar novas sensações", diz Bono, "recuperar o frescor de viver alguma coisa pela primeira vez. Como as pessoas vão reagir? Isso só saberemos tocando as músicas num estádio".

Uma das maiores curiosidades de Bono é justamente o que ele vai sentir quando escutar milhares de pessoas num show reproduzindo o coro encantador e assombroso de "Iris (Hold Me Close)", música sobre sua mãe, que morreu quando ele tinha 14 anos. "Eu vi tudo. Minha mãe teve um derrame no funeral do meu avô", conta ele, num tom mais grave. "Nós, irlandeses, não somos muito de falar sobre traumas de família", diz o líder da banda.

Seus fãs devem se comover com isso. Este é, afinal, o objetivo maior do U2: mexer com quem os ouve. Sempre. Mesmo anos, décadas, depois de estourarem como uma alternativa coerente para o pop da virada dos anos 1970 para os 1980, Bono, Edge, Adam e Larry ainda se perguntam: o que é preciso para se manter conectado às pessoas?

"Não basta fazer um bom álbum hoje em dia", diz Adam. "São tantas coisas que você tem que fazer para continuar relevante: shows, entrevistas, redes sociais." Redes sociais? Será que os caras do U2 cederam à tentação maior do nosso tempo, "ser curtido" por todo mundo?

"Eu experimentei o Instagram por um tempo", diz The Edge. "Coloquei algumas fotos interessantes na rede social, mas depois perdi a curiosidade. Pode ser até que eu volte a fazer isso, mas, no momento, não estou interessado". Larry tem uma justificativa para estar fora das redes: "O volume de coisas que eu tenho para fazer todos os dias é tão absurdo que eu não posso me dedicar a uma rede social".

E Bono, que como "pessoa física" não participa de nenhum desses sites (a banda, como uma "entidade" está sempre conectada), tem a explicação mais divertida. "Eu costumava brincar que expor suas ideias, memórias e pensamentos para um bando de gente que você não conhece era uma das coisas mais ridículas que existem -até que parei para pensar e percebi que é exatamente isso que eu faço para ganhar a vida", diz ele, soltando a primeira gargalhada da entrevista. E finaliza: "Eu faço isso com a minha música! Nas redes sociais, todo mundo é um artista, todo mundo conta uma história -a história da sua vida. Já estou bem servido disso".

Mas que história o U2 quer contar desta vez? Segundo The Edge, o desafio da banda é sempre manter a identidade ao mesmo tempo em que propõe coisas novas. "Para artistas como nós, só existem duas maneiras de seguir relevante. Desaparecer por um tempo e vir com um trabalho que satisfaça a expectativa dessa ausência -como faz Kate Bush ou como fez David Bowie recentemente. Ou seguir se reinventando —essa é nossa opção. Com esse disco, nosso objetivo foi surpreender as pessoas, da mesma maneira que nós, quando estávamos começando, fomos surpreendidos por Joy Division ou Siouxsie and the Banshees. Fomos cavar fundo para ir adiante."

O futuro da banda não chega a ser uma preocupação para Bono —o que seria até estranho para um artista da sua estatura. Ele sabe que tiveram uma carreira única e é grato por isso.

"Não posso reclamar da vida", diz. "Mesmo que tenhamos que fazer alguns sacrifícios pessoais para sustentar uma instituição como o U2, eles não são nada diante de tudo que conseguimos e do que nossa música significa para tantas pessoas." O tom talvez seja messiânico, mas não é pretensioso.

A MAIS NORMAL DAS ESTRELAS

Bono não coloca sua bandeira de "agente de mudança social" na frente do dom artístico. Quando fala da One, sua ONG, é até com certo comedimento: "Nós trabalhamos com todo mundo que esteja interessado em melhorar a vida dos pobres".

Talvez por isso ele acompanhe de perto a situação de países como o Brasil. A eleição presidencial surge como um assunto natural da conversa, e ele se mostra bem informado: "Vocês fizeram progressos incríveis em ações sociais, como o Bolsa Família (que ele pronuncia em português, quase sem sotaque). Mas há também o problema da corrupção, que, aliás, existe sempre em qualquer lado da política, seja na esquerda ou na direita. Por isso mesmo, o importante é cobrar dos dois partidos que estão na disputa, independentemente de quem vai ganhar, uma transparência total".

"Todo mundo tem uma ferramenta fundamental e fácil para isso: a internet. Como alguém que paga impostos, você tem o direito de saber como eles são gastos, e a tecnologia pode ajudar mesmo quem não tem muitos recursos."

Mais do que um suposto profeta, Bono soa como um ser humano comum ao se preocupar com os outros. Sentado ali, num estúdio em Londres, dando entrevistas, está um dos artistas mais influentes do mundo. Mas longe de parecer inacessível, ele se mostra como a mais normal das superestrelas, capaz de discutir os caminhos do mundo com a mesma naturalidade com que brinca com o smartphone em que a entrevista está sendo gravada.

"Eu preciso me lembrar de usar mais o telefone para registrar ideias para músicas quando estivermos no estúdio", diz Bono, displicentemente. Larry, que divide o sofá com ele, se recorda com humor dos tempos em que, durante uma turnê, eles paravam no meio da estrada para ligar para casa e deixar registrado na secretária eletrônica essas ideias que depois virariam sucesso. "A tecnologia facilitou muito nossa vida", diz, com ironia.

E é Larry novamente que, como um biógrafo informal, volta ao tema do glaucoma de Bono. "Numa das primeiras vezes que tocamos no Japão", recorda-se o baterista do U2, "chegamos num bar, depois do show, e veio um cara com uma daquelas máquinas antigas, que estourava um flash forte na sua cara, e eu vi bem a reação de Bono, como se tivesse levado um soco, seu olhar tinha se perdido".

Nessa época, meados dos anos 1980, o problema ainda não havia sido diagnosticado, e Bono estranhava, sem entender direito, as distorções nas imagens que seu cérebro registrava.

"Demorei muito para fazer um exame específico para esse problema, e agora eu digo que todo mundo com mais de 40 anos tem que fazer um teste. Muitos se referem ao glaucoma como o 'ladrão silencioso', porque rouba sua visão aos poucos. Você vai perdendo a capacidade de enxergar perifericamente e isso pode ser um grande problema, à medida que a idade avança. Mas, enfim, foi por isso que eu comecei a usar óculos escuros, para proteger meus olhos", diz o cantor.

"Mas não sofro mais com isso." Aliás, Bono dá a impressão de não sofrer muito com nada -nem mesmo com quem se ressentiu de ter "Songs of Innocence" forçosamente adicionado à sua coleção de músicas. Com a sabedoria de quem conquistou tanto, e com tanto esforço -você pode fazer qualquer crítica ao U2 como banda, menos a de que eles fizeram tudo de qualquer jeito-, ele é, enfim, um artista pleno. E transparente.

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