Celebridades

Vencedor do Oscar, Matthew McConaughey é fã de novela brasileira

"Cara, 'Viva la Vida' ainda está passando?", me pergunta Matthew McConaughey. Não entendo o que ele quer dizer. "Desculpa, 'Viver a Vida', a novela, ainda está no ar?" Digo que não, que já faz algum tempo que acabou (quatro anos, para ser mais exato). "Essa foi uma boa novela! Sinto saudades dela. Costumava ver todos os dias para aprender um pouco de português." Ele lembra bem de Mateus Solano, que interpretou os gêmeos Jorge e Miguel na novela de Manoel Carlos. "Tremendo ator", diz o texano de 44 anos.


Quando Matthew McConaughey surgiu, loiro e em ótima forma, em 1996, no thriller "Tempo de Matar", ganhou a alcunha de "novo Paul Newman". Mas sua carreira depois disso dava a impressão de que nunca faria jus à comparação. Trilhou o caminho previsível das comédias românticas bobinhas, tipo "Como Perder um Homem em 10 Dias" (2003), "Armações do Amor" (2006) e "Minhas Adoráveis Ex-Namoradas" (2009). Mas, três anos atrás, passou a optar por filmes mais ousados, papéis mais complexos e hoje é o nome mais quente de Hollywood.

Ganhou o Oscar de melhor ator neste ano por "Clube de Compras Dallas", foi indicado ao Emmy pela série da HBO "True Detective", roubou a cena com uma breve participação em "O Lobo de Wall Street" (2013), de Martin Scorsese, e agora protagoniza a superprodução "Interestelar", de Christopher Nolan (de "A Origem" e "Batman - Cavaleiro das Trevas").

A guinada na carreira, de canastrão sem camisa para ator respeitado, ganhou nos Estados Unidos o apelido de "McConaissance" (a renascença de McConaughey) e passou a ser sinônimo do retorno de bons intérpretes que estavam no limbo dos filmes ruins. "A primeira decisão que tomei foi falar 'não' para as coisas que fiz no passado. Comecei a não aceitar projetos que pareciam similares aos anteriores. Inicialmente, não funcionou. Fiquei dois anos sem trabalhar", diz Matthew à Serafina, com as pernas em cima dos braços do sofá, de calça esportiva, camiseta branca e tênis de corrida.

Ele conta que sofreu no período em que ficou desempregado, entre 2009 e 2011. "Nestes dois anos, me desvinculei da percepção que [os diretores] tinham de mim. Precisei penetrar nas sombras para sair delas como outra pessoa", diz.

O começo da mudança foi marcada pelo filme "Killer Joe - Matador de Aluguel" (2011), de William Friedkin ("O Exorcista"), no qual interpreta um detetive corrupto que protagoniza uma cena grotesca, em que obriga uma mulher a simular sexo oral com um pedaço de frango empanado.

"Primeiro, fui uma boa ideia de Friedkin [para o papel]. Então, vieram Steven Soderbergh com 'Magic Mike' (2012), Jeff Nichols com 'Amor Bandido' (2012). E, de repente, virei uma boa ideia para outros diretores", comemora.

Matthew faz questão de ressaltar a importância de sua mulher, a modelo brasileira Camila Alves, 32, com quem tem três filhos —Levi, 6, Vida, 4, e Livingston, 1—, na guinada de sua carreira. Juntos desde 2006, os dois se casaram em 2012. "Eu discuto tudo com Camila. Ela é minha mulher e parceira. Quando viajo a trabalho por um tempo, a família vem junto", diz ele, que rodou "Interestelar" na Islândia e no Canadá. "Ela exigiu isso desde cedo no nosso relacionamento. Quer conversar sobre mulheres fortes?", brinca o ator.

FAÇA COM ESTILO

A mineira, além de ser uma modelo requisitada, é dona da marca de bolsas Muxo (mymuxo.com). "Camila tem sua vida profissional, mas toda vez que tenho um trabalho e ela sabe que realmente quero fazê-lo, muda a agenda dela pra tornar o meu projeto possível. Isso requer coragem e dedicação da minha mulher. É como nossa parceria funciona", diz.

Conta que não quer aprender a falar português, para deixar "Camila livre para falar mal de mim com sua mãe ou amigas, mesmo comigo na sala". E revela um truque. "Ela acha que entendo mais português do que realmente sei. Quando termina uma conversa, dou minha opinião sobre o assunto e ela pergunta como compreendi o que elas estavam conversando", brinca o ator, que fala espanhol.

O inglês é a primeira língua da família, mas Matthew conta que Camila dá broncas na meninada em português. "Eles entendem e precisam saber de onde a mãe vem. Tocamos
música brasileira o tempo todo", diz ele, que já viajou ao Brasil três vezes.

Além de Minas Gerais, terra de sua mulher, o ator esteve no Rio e em "Trancosa", como se refere a Trancoso, no litoral baiano. "Fomos a um restaurante cinco estrelas e pedimos um vinho. O sommelier segurava a garrafa de uma maneira elegante, seguindo um protocolo rígido e delicado. Ele me mostrou o rótulo, perguntou se era aquele vinho, me fez experimentar e depois serviu com as mãos para trás", relata.

"No dia seguinte, fomos a um pequeno mercado de peixes na praia e o lugar só tinha um tipo de vinho, bem barato, mas o sommelier seguiu o mesmo protocolo do restaurante chique. Pensei: 'Se você vai fazer algo, faça com estilo'. Essa é a lição do Brasil para mim."

E assim Matthew trocou a imagem de caipira bonitão e machista de Uvalde, pequena cidade do Texas, para a de ator estiloso que interpreta papéis tão diferentes quanto o de um repórter gay ("Obsessão"), um foragido de coração mole ("Amor Bandido"), um velho stripper ("Magic Mike") e um homofóbico portador do vírus da Aids ("Clube de Compras Dallas"). Este último lhe rendeu o Oscar.

Ele diz que o prêmio só serviu para que "as pessoas me respondessem mais rápido" e para ter "mais opções interessantes de roteiros". Faz graça, mas não despreza a estatueta. "Houve um alerta de tsunami no Chile, um pouco depois da premiação, e expliquei o que era para minha filha, Vida. Ela perguntou se poderia acontecer o mesmo em Malibu, onde moramos, e falei que sim e que precisaríamos salvar as coisas mais importantes. Vida disse: 'Temos de pegar o Oscar!'"

"Foi um grande momento na minha carreira [ganhar o prêmio]. Mas ainda faço as mesmas perguntas quando leio um roteiro: 'O que esse personagem significa para mim? Por que me intriga? Por que me assusta? Por que não sai da minha cabeça?'"

EVOLUÇÃO

Foram essas questões que o levaram a um dos papéis mais representativos do seu momento atual, o detetive Rust Cohle da série "True Detective", exibida de janeiro a março. "Era como ter um filme bom estreando todos os domingos. Eu assistia aos episódios como qualquer pessoa, sabe? Fui me apaixonando por ela e tenho muita saudade", afirma. "Eu e Nic Pizzolatto, criador da série, conversamos muito sobre voltarmos a trabalhar juntos, não sei se com o Rust ou com outro personagem."

Não que ele esteja precisando de emprego. O épico espacial "Interestelar", dirigido por Christopher Nolan, é uma das estreias mais esperadas do ano e entra em cartaz no próximo dia 6. Rodeado de segredos, o filme não foi mostrado para os críticos antes da entrevista, feita exatamente para divulgá-lo. O diretor inglês é conhecido por não permitir que os atores falem sobre o longa antes do lançamento.

O que se sabe é que se passa no futuro e que McConaughey interpreta um engenheiro e piloto que lidera uma missão para encontrar novos planetas e salvar a humanidade, já que na Terra os recursos naturais estão esgotados. O problema: no planeta que poderia evitar a extinção da raça humana, cada hora passada equivale a sete anos na Terra. "É uma história sobre nossa evolução como seres humanos", diz. "Chegará o dia em que precisaremos questionar: 'Devemos morrer aqui na Terra ou faz sentido procurar outros lugares?' Acredito que deve existir algo além dessa prisão que a gravidade nos impõe."

A produção enfrentou a atual revolta climática ao filmar na Islândia, país que serve de cenário para um planeta cujas nuvens são sólidas como montanhas de cabeça para baixo. "Enfrentamos ventos fortíssimos. Vimos as tendas da produção voando, o asfalto sendo varrido e a tinta de um carro sendo lixada com a força do vento que levantava pedras. Aí, percebemos que era hora de parar de filmar", lembra. "Não sei se estamos no caminho para a destruição, mas a natureza sempre mostra que é consciente e resistente, apesar de ser maltratada. Ela se reconstruirá."

É bom não duvidar. Se alguém entende de reconstrução, esse alguém é Matthew McConaughey.

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