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'Shrill', a série que retrata as pessoas acima do peso de forma pouco vista na TV

"Shrill" oferece uma nova perspectiva sobre atores e mulheres acima do peso - BBC News Brasil/Hulu
Jane Mulkerrins

É raro que um momento específico da televisão possa ser visto como revolucionário. Mas uma cena na série americana "Shrill", uma comédia dramática, levou mulheres adultas (e provavelmente alguns homens também) às lágrimas com seu espírito progressista e alegre.

A protagonista Annie, interpretada por Aidy Bryant (do programa humorístico Saturday Night Live), vai a uma festa chamada Festa da Garota Gorda na Piscina com sua melhor amiga Fran (Lolly Adefope).
Annie é a única convidada que está completamente vestida –todas as mulheres em torno dela, todas sensuais, estão usando coloridos biquínis ou maiôs cheios de estilo, num verdadeiro espetáculo de seios, bumbuns e coxas.

Depois de um tempo, Annie se livra de seus receios e se joga na pista de dança –e depois tira o excesso de roupa e cai na piscina com um novo nível de autoaceitação. "Ver tantas mulheres, com tipos de corpos que são geralmente categorizados como 'indesejáveis', trabalhando essa questão e se mostrando lindas foi algo incrível", diz Loey Lane, uma influenciadora que promove positividade corporal e acumula 2 milhões de seguidores em mídias sociais. "Eu já fui a essas festas de piscina na vida real, mas eu nunca as tinha visto na tela."

E não foi apenas essa cena que causou grande reação do público de "Shrill". Com sua heroína acima do peso, complexa e engraçada, a série de seis episódios, baseada nas memórias da jornalista Lindy West, tem sido elogiada como uma resposta à longa tradição da indústria do entretenimento de desvalorizar e ridicularizar quem não seja bastante magro.

"Parece um daqueles grandes momentos culturais", diz Harriet Brown, autora do livro "Corpo de Verdade: Como a Ciência, a História e a Cultura Lideram nossa Obsessão por Peso" –e o que "Podemos Fazer a Respeito".

"Nós vimos mulheres com corpos grandes na TV antes, mas elas estão quase sempre relegadas a papéis coadjuvantes, ou são base para piadas, ou são usadas como contraponto para outros personagens. Ou, caso tenha um papel central, o tamanho do seu corpo –e como ela lida com isso– é a base de toda sua história."

Num dos extremos mais ofensivos dessa questão, está o uso do que ficou conhecido como "roupa gorda" – ou "fat suits", em inglês –uma vestimenta que serve não apenas para fazer piada com pessoas gordas, mas também permite o uso de atores magros, que depois podem se transformar na sua própria imagem linda típica de Hollywood.

O seriado "Friends" foi notório ao fazer isso com a versão gorda de Monica, interpretada por Courtney Cox, enquanto Gwyneth Paltrow usou um no filme "O Amor É Cego" (Shallow Hal), chamado de "o filme mais 'gordofóbico' de todos os tempos" pelo site Revelist, com a "beleza interior"' da personagem na forma de uma Paltrow magra, sem a "roupa gorda" – aparecendo e brilhando depois que ela foi hipnotizada.

E elas continuam sendo usadas: o drama adolescente "Insatiable", da Netflix, colocou a jovem atriz Debby Ryan numa dessas roupas no ano passado para interpretar Patty, uma estudante do ensino médio que, graças a uma contusão e três meses de dieta líquida, perde 31 quilos e passa a ser considerada incrivelmente atraente.

ROTEIROS PATERNALISTAS

Nas telas de TV e cinema, tem havido recentemente um número um pouco maior de estrelas do sexo feminino que não sejam bem magras –mas o tratamento que recebem tem sido questionável. Veja o exemplo da estrela australiana Rebel Wilson, que era permanentemente colocada no papel da coadjuvante até seu mais recente filme, "Megarrromântico" ("Isn't It Romantic") –que conta a história de uma mulher que bate a cabeça, e sua vida vira uma comédia romântica.

O filme joga, de forma paternalista, com a ideia de que ela é uma improvável personagem principal de uma comédia romântica. Não é um conceito muito diferente do adotado pelo filme "Sexy Por Acidente" ("I Feel Pretty"), que estrelou Amy Schumer como uma mulher com baixa autoestima que cai de uma bicicleta ergométrica e passa a acreditar que é a mulher mais linda do mundo.

A mensagem óbvia é: como pode Schumer, com suas formas mais largas, ser considerada linda? Como diz Brown, mulheres mais gordas em papéis principais são frequentemente colocadas em tramas que giram em torno de seu peso. Os exemplos incluem o papel de Melissa McCarthy na sitcom "Mike & Molly" –sobre um casal que se conhece nos Comedores Excessivos Anônimos– e Kate, da série "This is Us", interpretada por Chrissy Metz, que luta para perder peso, de forma contínua e sofrida. A personagem Annie, de "Shrill", no entanto, é objeto de tramas –frustrações na carreira, um aborto, casos de uma noite só– que não têm nenhuma ligação com seu peso, seu corpo e sua autoimagem.

"Seu patrão é um idiota, e o cara com quem ela está transando não é muito legal com ela, mas não porque ela era uma garota grande", diz Lane. "São experiências universais, e isso dá uma sensação de algo bastante novo."

Isso não quer dizer que Annie não enfrente desafios ligados à forma de seu corpo. Sua jornada pessoal, de preocupação exagerada à liberação numa tarde na piscina, é um microcosmo de sua trajetória nos seis episódios da temporada, da timidez e dúvidas sobre si mesma à conquista de mais poder e à autoaceitação.

Os primeiros episódios claramente mostram como sua forma é reprovada em público –estranhos lhe fazem insultos disfarçados de elogios ("Você me lembra Rosie O'Donnell", referindo-se à atriz e comediante que também tem um porte físico grande), e um personal trainer lhe oferece, numa cafeteria, "ajuda" para que ela liberte a pessoa magra que está "presa" dentro dela.

"Isso se pareceu incrivelmente com coisas que aconteceram comigo", diz Lane. "Eu perdi a conta de quantas vezes as pessoas me disseram: 'Você tem um rosto tão bonito' ou 'Oh, você vai ficar tão linda depois que perder X, Y ou Z quilos'."

Quase tão radical quanto as tramas envolvendo Annie em "Shrill" é seu guarda-roupa: contém vestidos floridos, brilhantes e uma roupa de festa sexy com lantejoulas, tudo de provocar tanta inveja quanto as roupas de qualquer outra protagonista do sexo feminino num programa de TV contemporâneo.

Entretanto, a figurinista da série, "Amanda Needham", revelou que a maioria das roupas teve de ser produzida do zero, porque a oferta de roupas adequadas em lojas é muito limitada. "Quando você chega a um certo tamanho de roupa, as pessoas meio que querem que você desapareça", disse ela recentemente à revista New York.

O ÚLTIMO PRECONCEITO AINDA ACEITO

Peso, ao que parece, é o único estigma ainda considerado como aceitável socialmente (em sociedades ocidentais modernas), e pessoas acima do peso são o único grupo marginalizado "merecedor" de reprovação do público. Brown faz referência a um recente estudo que se concentrou em taxas de viés implícito –ou de, simplesmente, preconceito.

"Ele mostrou que, em relação a questões como orientação sexual, gênero e raça, nós estamos vendo uma redução dos níveis de viés implícito. Mas, em relação a questões de corpo, estamos vendo um aumento do viés", diz ela.

Isso certamente parece ser verdade em Hollywood. Nos últimos anos, a indústria americana do cinema fez claros esforços públicos para ser mais representativa em questões de gênero, etnicidade e orientação sexual nas telas; a diversidade de corpo, entretanto, continua sendo deixada para trás.

Brown diz que psicólogos não sabem explicar por que o preconceito relacionado ao corpo aumentou, mas ela afirma: "Uma teoria diz que, apesar de estarmos nos tornando mais inclusivos, como humanos ainda precisamos categorizar algum grupo como 'outro'. E os gordos são um alvo fácil, porque, apesar de pilhas de evidências científicas e médicas mostrando o contrário, nós ainda achamos que pessoas gordas poderiam ser magras se elas se esforçassem mais. Isso é visto como uma questão de responsabilidade pessoal e força de vontade."

E são os corpos de mulheres os alvos de maior julgamento e policiamento –tanto nas telas como fora delas–, claro. "Veja o programa de TV "Modern Family", por exemplo", diz Taryn Myers, professora de psicologia na Universidade Virginia Wesleyan e especialista em imagem corporal.

"Era para ser um programa diversificado e representativo. E, se você olhar para os homens, eles têm diversos tipos de corpos. Mas, se você olhar para as mulheres, elas são todas do tipo 'magra ideal'."
Brown menciona a noção recém-criada de "Dad-bod" –corpo masculino típico de homem de meia-idade, meio fora de forma– como um exemplo de padrões físicos diferentes para homens e mulheres. "Isso é algo de que as pessoas falam de forma carinhosa", diz ela.

Realmente, Winston Duke, astro do filme "Nós", dirigido por Jordan Peele, recentemente me disse que ele foi incentivado a cultivar um "Dad-bod" para o filme, já que ele realmente interpretaria um pai. É difícil de imaginar as duas personagens femininas adultas do filme, interpretadas por Lupita Nyong'o e Elisabeth Moss, sendo encorajadas da mesma forma para criar um físico mais cheio para interpretar duas mães.

UM FUTURO DIVERSO?

Nesse contexto, "Shrill" está sendo corretamente celebrada por sua representação radical de uma moça acima do peso, embora um pouco de cautela seja recomendável –neste momento, é apenas uma série de TV, e ainda existe um longo caminho até que a diversidade corporal se torne a norma nas telas de cinema e TV.

"Nós sabemos que leva bastante tempo para que uma representação real chegue e mude as coisas", diz Brown. "Nós ainda estamos trabalhando para que isso aconteça em outras questões, nas quais estamos trabalhando há muito tempo, como raça."

Mas o momento da chegada de "Shrill" é significativo. A série veio na era do #MeToo, quando mulheres estão se levantando e se recusando a ser silenciadas da forma como eram –e isso inclui questões relativas a seus corpos, com novos movimentos e grupos ativistas nos Estados Unidos, como a Associação Nacional pela Aceitação dos Gordos e Saúde em Qualquer Tamanho.

"Hollywood sempre teve medo de deixar que qualquer mulher seja vista como linda e poderosa com ela realmente é, porque eles sempre quiseram restringir esse poder a um pequeno grupo de elite que visualmente parecem inatingíveis", diz Lane. "Eu adoro ver que finalmente estamos nos livrando desse molde."

BBC News Brasil