Cinema e Séries

Falado em 'cearencês', 'Cine Holliúdy 2' chega aos cinemas com a luta de Lampião contra ETs

Sequência da comédia nos cinemas prepara público para série na Globo

Ator Edmilson Filho em cena de Cine Holliúdy 2 - A Chibata Cideral - Divulgação
São Paulo

Quase tudo é verdade no roteiro de “Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral”, que estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas. A sequência do filme lançado em 2012 é mais uma declaração de amor do personagem Francisgleydson (Edmilson Filho) e de sua família à sétima arte.

Se no primeiro filme falado em “cearencês (com legenda para o resto do Brasil), o personagem tinha o sonho de abrir uma sala de cinema, agora, a sua missão é fazer um filme de ficção-científica.

No primeiro longa, Francisgleydson vê seu empreendimento falir com a chegada do videocassete. Os anos passam e ele já não sabe mais o que fazer para ganhar dinheiro. Até que ele vive uma experiência extraterrestre que o ilumina.

Ele e o filho Francin (Ariclenes Barroso), agora moço, cismam que ficarão ricos com a produção de um longa de ficção-científica. A ideia fica brilhante quando a história tem como herói o famoso Lampião, que enfrenta os alienígenas.

Para integrar o elenco, ele convoca os moradores de Pacatuba e recorre aos corruptos, o prefeito Olegário (Roberto Bomtempo) e primeira-dama Justina Ambrósio (Samantha Schmütz) para conseguir a verba. 

Para facilitar os efeitos visuais, Francis faz uma campanha para encontrar as pessoas mais feias e esquisitas da cidade. Uma música de Falcão, artista que participa do filme, chamada “Ô Povo Fei!” está na trilha para esse momento.

Segundo o cineasta Halder Gomes, toda inspiração para essa comédia vem de histórias de sua vida e do jeito de viver do cearense. "O cearense faz mil piadas só sobre testículo. Ele tem um senso de humor incrível e uma tolerância da comédia diferenciada. Somado a isso, tem o meu humor e do Edmilson Filho, que a gente adquiriu ao longo da vida inteira pelo convívio com a cultura popular de lá".

Até as histórias, por mais malucas que possam parecer, têm origem na cultura cearense. “Não tirei essas coisas do nada. Há muitas histórias de abdução no Ceará. Algumas nada reais, que não passam de uma desculpa de um cara para enganar a mulher dele. Mesmo assim, o cara conta a história tão sério que uns até acreditam. Também procurei um famoso ufólogo da região”, conta Halder. 

Tudo pode fazer rir no filme, como a maneira deles conversarem entre si, as expressões engraçadas e personagens como o de Falcão, que faz um cego que é assistente de direção do filme. “Não tinha muito como trabalhar o olhar nesse filme, mas tenho desenvolvido minhas técnicas de atuação. Esse cego é um cara visionário, um diretor de cinema altamente experiente e entende tudo de ficção científica”, brinca Falcão.

O cantor e comediante iniciou sua carreira de ator com o cineasta Halder Gomes. “Já fiz filmes com outros diretores e melhoro a cada momento. Estou me transformando no Marlon Branco cearense”, brinca o artista, que também trabalhou em "O Shaolin do Sertão" (2016).

DE CURTA-METRAGEM À SÉRIE DA GLOBO

As histórias dos filmes de Halder Gomes tem também muito a ver com a sua história de vida e construção como cineasta. Antes de dirigir filmes, eles se tornou mestre de artes marciais —por isso, as lutas são muito presentes em seus longas, principalmente em "O Shaolin do Sertão" (2016). Não foi fácil convencer investidores de que sua arte valia a pena.

“Cresci querendo ser cineasta e eu vi o meu pai, que foi prefeito, levar a primeira televisão para a praça da nossa cidade. Ele ajudou a acabar com o meu cineminha”, brinca Halder, que também batalhou muito para conseguir ver o seu primeiro longa estrear, como o personagem Francesgleydson no filme. 

No início dos anos 2000, quando Gomes lançou o curta-metragem "Cine Holliúdy - O Astista Contra a Caba do Mal" em VHS nas locadoras do Ceará, o filme bateu "Matrix", conta ele. "Percebi que aquelas pessoas gostavam de se ver nos filmes", conta. Foi aí que ele partiu para a luta de fazer o seu primeiro longa. 

“O primeiro 'Cine Holliúdy' foi feito com R$ 1 milhão por meio de um edital. O segundo longa tem a verba maior porque já vem do sucesso do primeiro e também porque a história é mais complexa", conta o cineasta que contou com o orçamento de R$ 6 milhões.

"Os efeitos têm de ser bons, mas com a textura dos anos 1980, de quando se passa história. Há um estudo de cores muito elaborado e inspiração na arte. Há referências ao pintor cearense Chico da Silva, à 'Noite Estrelada' de Van Gogh, à paleta de Matisse, além de Calder e Miró. É toda uma costura que passa pela pintura e se entrelaça com a ficção-científica retratada nos anos 1980”, afirma o cineasta. 

Halder Gomes tem todas essas referências porque é também pintor autodidata desde a infância. Toda essa mistura está criando a sua identidade como cineastas. "Todo artista tem uma maturidade que vai adquirindo. Chega um momento que você olha para o cubismo e sabe que é um Picasso. Quando você já tem domínio pleno do que você faz, só você pode fazer daquele jeito. O meu investidor viu o filme pronto, porque ele sabe que vou entregar o que ele espera, e que mais ninguém pode fazer dessa maneira", diz Gomes. 

O sucesso de suas criações o levou para a TV. "Cine Holliúde" já virou série da Globo, e deve estrear em maio. "Pensamos em brincar com os gêneros do cinema em cada episódio, tem muito a ver com o universo do Francisgleydson", adianta Gomes. "Eles pegaram os melhores roteiristas para fazer a série. Quando o material chegou, estava tudo lindo e maravilhoso. Dei apenas um tapa na prosódia, mas não se perdeu a essência. É conteúdo de televisão, com jeito de cinema", completa o autor orgulhoso. 

SUCESSO E SALAS DE CINEMA 

A comédia "Cine Holliúdy 2 - A Chibata Cideral" estreou antes no Ceará e lá bateu recordes já no primeiro fim de semana de exibição com o público de 31 mil pessoas. Para se ter uma ideia, a comédia cearense deixou em segundo lugar o grande lançamento "Capitã Marvel", que teve pouco mais de 16 mil espectadores no mesmo fim de semana.

"No Ceará, as pessoas reagem ao filme como em um estádio. Elas batem o pé e cutucam o amigo. É uma experiência transcendental ver esse filme nos cinemas de lá", conta Halder Gomes, que abre e encerra a maioria das sessões por lá pessoalmente, seja na capital ou no interior. 

Se as salas de cinema foram diminuindo ao longo dos anos em todo o Brasil,, Gomes conta que conseguiu fazer algumas pessoas se apaixonarem novamente pela tela grande. "O dono de uma rede de supermercados [Pinheiros Supermercado] viu o filme e ficou sensibilizado com a importância de ter salas em cidades pequenas. Ele me disse que vai colocar uma sala em cada loja que ele abre e está fazendo isso mesmo", conta o cineasta.