Celebridades
Descrição de chapéu The New York Times

Hugh Jackman fala sobre fazer musicais e recorda solidão durante 'X-Men'

Ator compara senso de coletividade do teatro com o individualismo do cinema

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Juan A. Ramírez

"Foi meio que um milagre que eu tenha começado no teatro musical", disse o ator Hugh Jackman, 53, um dia desses, recordando o início de sua carreira em 1995. "Eu tinha acabado de me formar e meu agente disse que a produção não estava encontrando um ator para interpretar Gaston [na produção australiana de "A Bela e a Fera"]. "Eu decidi fazer um teste. Consegui o papel, mas meu contrato exigia que eu fizesse aulas de canto uma vez por semana. Eu me senti um completo outsider, desde o começo".

Agora na disputa por seu terceiro prêmio Tony, pelo papel do grande trapaceiro americano Harold Hill em "The Music Man", o ator australiano recordou a sensação de voltar ao palco para seu primeiro musical na Broadway desde 2003. (Embora ele não tenha deixado o teatro completamente de lado: Jackman estrelou "A Steady Rain" em 2009 e "The River" em 2014). Em uma hora de conversa em um hotel na região central de Manhattan, ele mostrou ser um ator curioso que sempre opta pelo afirmativo; seu charme, uma mistura de consideração e confiança, desarma o interlocutor.

A despeito de sua longa lista de realizações e elogios, Jackman parece tão ansioso por agradar quanto por iniciar novas aventuras. Ele tem uma mente inquisitiva, que eu pude contemplar de perto quando o ator participou como ouvinte de um curso de pós-graduação sobre história do cinema que fiz no segundo trimestre de 2020. Annette Insdorf, amiga de Jackman, era a professora responsável pelo curso e, quando a pandemia forçou o cancelamento das aulas presenciais, Jackman continuou a participar via Zoom dos seminários de quatro horas de duração.

"Eu tenho uma compreensão leiga do cinema. Pedia a diretores que me dessem uma lista de cinco filmes que precisava assistir antes de morrer, e era raro que tivesse assistido a qualquer deles", disse Jackman. "Pedi ajuda a Annette e ela disse que o mais fácil seria eu fazer seu curso".

Na época, ele estava promovendo "Má Educação", filme que fez para a HBO e no qual ele interpreta uma pessoa real, o ex-superintendente de um distrito escolar que se confessou culpado por roubar US$ 2 milhões (R$ 10,2 mi) do distrito, e começando os ensaios para "Music Man", com sua companheira de elenco Sutton Foster. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Você interpreta trapaceiros com personalidades expansivas, em "Music Man" e "Má Educação". Um papel influenciou o outro?
Sou fascinado pela fascinação coletiva com trapaceiros e criminosos, e também vejo alguma influência nisso de P.T. Barnum (o empresário circense que ele interpretou no filme "O Rei do Show"). Ainda não estou 100% seguro de onde isso vem, mas creio que esteja profundamente enraizado em uma filosofia muito americana e individualista de não fazer o que os homens lá de cima mandam que façamos.

Você vive nos Estados Unidos há cerca de 20 anos. Já se considera um americano?
Sou australiano. Creio que os Estados Unidos são um lugar extraordinário, porém –existem poucos lugares com tamanha generosidade de espírito.

Você acha que essa generosidade é o que faz com que os americanos se deixem atrair por trapaceiros?
Tudo parte daquele senso de individualismo, e a expressão definitiva disso é o trapaceiro, que se volta contra tudo e inverte as regras da hierarquia. A Austrália tem um pouco disso, mas vimos durante a pandemia que os australianos seguem as regras. Há um senso coletivo de "isso é o que realmente deveríamos fazer", e as pessoas se enquadram. E o que vimos aqui é que não existe esse impulso a se enquadrar.

Assim, o que o atrai a personagens como esses é puro escapismo?
O que amo no trabalho como ator é explorar alguns aspectos das pessoas que escolhem viver sua vida de uma maneira oposta àquela pela qual fomos criados, e que parecem não acreditar que todo mundo que as cerca continue a seguir as regras. Assim, não se trata de escapismo; é só a diversão de interpretar alguma coisa que eu não me permitiria, ou não desejaria, ser em minha vida. Fico contente por nem todo mundo ser como Harold Hill, mas é muito divertido interpretá-lo do jeito mais arrogante que posso durante duas horas e meia. Ser autodepreciativo começa a entediar, depois de algum tempo.

Como é que você se sente no papel, agora que o espetáculo já está em cartaz há seis meses?
Para mim, esse grande espetáculo, com um elenco de 47 pessoas, continua sempre crescendo. Tenho um dos papéis principais, mas não é tão exaustivo quanto foi minha experiência em trabalhos passados. Acho que é a forma pela qual esses espetáculos antigos eram construídos. Passo muito tempo no palco, e meu papel é o central em boa parte das cenas, mas há algo diferente: eu entro no começo, canto o primeiro número e saio para uma mudança de figurino. Não fumo, mas a sensação é como a de uma pausa para um cigarro, o que tenho certeza que é o que muitos atores faziam nesses intervalos, antigamente.

Há dias em que já começo cansado mas, quando chega a terceira cena, "uau, minha energia voltou". Há alguma coisa nesse espetáculo que me revigora, e me dá uma energia que eu nem sabia ter. E quando você trabalha com Sutton...

Ela lhe ensinou alguma coisa sobre como manter o vigor? Ela é uma estrela, mas trabalha como se fosse alguém batalhando por seu primeiro papel.
Ela é uma maravilha. Eu com certeza preciso estar sempre na minha melhor forma. Pedir que eu sapateie ao lado de Sutton Foster é como pedir que eu jogue tênis contra Novak Djokovic. Os ensaios com ela foram divertidos, mas foi meio desanimador passar 18 meses trabalhando naquilo e depois descobrir que há crianças que chegam e aprendem tudo em três horas.

Você nunca tinha trabalhado com tantas crianças, no palco, e muito menos em um espetáculo que traz 21 estreias na Broadway. Você se apanha sendo paternal para com elas?
As coisas foram um pouco nessa direção, especialmente com os atores mais jovens. Acho que alguns deles me veem como Wolverine (o super-herói que ele interpreta nos filmes "X-Men"), e por isso a sensação é um tanto paternal. Acho, especialmente para os garotos que estão fazendo sua primeira peça, que não quero que eles percam aquele senso de alegria. Procuro protegê-los.

Você em algum momento sentiu que corria o perigo de perder seu senso de alegria, quando estava em ascensão?
Houve momentos quando eu estava fazendo o primeiro filme dos "X-Men", meu primeiro grande trabalho no cinema americano, em que eu me apanhava muito sozinho. Eu vinha principalmente do teatro, e conseguia sentir aquela ideia de "hmm, isso não cheira bem". Não sei exatamente quando as coisas viraram, mas foi só depois que o estúdio disse que gostava do que eu estava fazendo que tive aquela sensação de que todo mundo estava querendo chegar mais perto de mim. Isso me entristeceu. Percebi que o cinema era mais individual, e nem tanto um trabalho coletivo.

O teatro vive de um senso de união, de conjunto, e, se isso não existir, ele morre. Não há maneira de suportar os ensaios, ou de fazer oito apresentações por semana, sem que as pessoas apoiem umas às outras. Por isso, desde aquele primeiro filme, eu sou sempre bem proativo para tentar criar uma atmosfera de apoio e abertura. Quero garantir que, mesmo sob a pressão de uma situação profissional, aquelas crianças continuem a ser crianças.

Você assistiu a alguma outra peça nesta temporada?
Não, mas eu queria ver a peça escocesa [Macbeth].

Você se recusa a dizer o nome, mesmo fora do teatro?
Eu sou uma pessoa muito mais medrosa do que os outros imaginam. Forcei-me a superar muitos desses medos e, embora eu preferisse, hoje, ter sido menos severo comigo mesmo, fico feliz por ter passado por cima deles, porque acho que o medo não é específico da coisa de que você acha ter medo. Antes que você perceba, ele se torna um câncer, e cresce até que sua vida se torne menor, sem que você nem mesmo se dê conta. Tenho um desejo constante de me libertar disso, e de dizer sim às coisas.

Alternar entre o teatro e o cinema, porém –uma coisa é dizer sim quanto a um filme que termina fracassando, e você segue em frente depois; já o teatro é um compromisso longo.
Bem, se o espetáculo for realmente ruim e todo mundo odiar, não vai demorar muito para que saia de cartaz. A maneira pela qual convivo com esse tipo de coisas é ter clareza quanto aos meus motivos para fazer qualquer trabalho. Se eu realmente acredito em minha escolha, fiz o trabalho pelos motivos certos. Nunca leio as críticas e, no caso de "The Boys From Oz", eu achava que estávamos indo bem até que os produtores nos disseram que não tinham certeza de que seria possível continuar. No fim, começamos a fazer muito sucesso, e eles me pediram para ficar por mais três meses. Você precisa se apegar àquele sentimento que trabalhar diante de uma audiência desperta, e ser honesto consigo mesmo sobre aquilo que é possível melhorar em seu trabalho.

Você disse que hesitou quanto a fazer "The Music Man" porque queria esperar por um trabalho original. O que o fez mudar de ideia?
Sempre que eu ia ao teatro, quando estava na escola, queria ver algo novo. Não era um daqueles fãs de teatro musical desesperados por uma nova versão disso ou daquilo. Queria ver algo muito bom, que me comovesse, e na maioria das vezes eram os trabalhos novos que tinham esse efeito.

Quando mais tarde me vi na posição de as pessoas perguntarem o que eu preferiria fazer, quis usar aquele capital para algo novo. Tentei colocar algumas coisas em movimento –um musical sobre Houdini, fiz algumas oficinas para "The Big Fish"— e descobri o quanto é difícil começar uma produção. Depois, demorei oito anos para conseguir produzir "O Rei do Show", e foi então que percebi que "The Music Man" era um excelente espetáculo. O texto é lindo, a estrutura é linda, e eu soube que queria fazer o papel. Mas continuo amando a ideia de fazer algo original no palco.

E que tal uma revisão radical de um velho sucesso? Por exemplo, "Hello Dolly" com o sexo do personagem principal trocado?
Acho que seria divertido. Seria algo que eu adoraria fazer. Sutton e eu chegamos a conversar sobre trocar de papel na apresentação de 1º de abril. Com certeza sei as canções dela de cor. Eu as ouço toda noite. Mas meu soprano não é assim tão bom.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci