Tony Goes

Na polêmica entre o forró e o sertanejo, todos têm um pouco de razão

A treta começou com Elba Ramalho. No começo deste mês, a cantora manifestou seu desagrado com a invasão de músicos sertanejos nas festas juninas realizadas no Nordeste. Suas declarações motivaram uma campanha nas redes sociais, sob a hashtag #DevolvaMeuSãoJoão.

Elba não está inventando nada. A perda de espaço do forró no São João nordestino é um fato: reportagem da Folha publicada no domingo (18) mostrou que até DJs de música eletrônica vêm sendo contratados pelas prefeituras para animar as plateias, enquanto que sanfoneiros tradicionais ficam em casa.

Mas as atrações mais badaladas (e bem pagas) de megafestas como as de Campina Grande e Caruaru são mesmo os sertanejos.

As queixas de Elba geraram uma resposta meio ríspida de Marília Mendonça: "vai ter sertanejo sim". A cantora goiana, um dos maiores nomes da onda do "feminejo", simplesmente reiterou o óbvio: o público brasileiro, de norte a sul, adora o sertanejo que vem do Centro-Oeste. É natural que seus artistas dominem os grandes eventos.

Aí a coisa esquentou. O forrozeiro cearense Alcymar Monteiro disse que Marília faz um breganejo horroroso, para cachaceiros (como se o forró fosse apreciado exclusivamente por gente sóbria). E a internet, como sói acontecer, mais uma vez rachou ao meio. Afinal, ainda não estamos polarizados o bastante, não é mesmo?

É muito bonito que se defenda uma tradição cultural. Também é legítimo que músicos sem trabalho lutem por mais oportunidades. Até mesmo uma legislação que garanta uma porcentagem de, digamos, 20% de artistas locais para uma festa de São João (ou do peão de boiadeiro, ou da uva, ou seja lá do que for) me parece justa.

Mas não dá para baixar uma lei obrigando as pessoas a ouvir o que elas não querem. Muito menos preservar em formol um estilo musical, tentando evitar o contágio com outros ritmos e influências. Na década de 1960, rolou até passeata contra a guitarra elétrica na MPB; hoje sabemos que esse tipo de manifestação não só é ridículo, como também é inútil.

O curioso é que o sertanejo vem sendo invadido por artistas nordestinos, como os cearenses Wesley  Safadão ou a dupla Simone e Simaria. Eles trazem uma pegada diferente ao gênero, incluindo elementos do forró, e fazem o maior sucesso em Barretos e adjacências.

De qualquer forma, o debate atual tem sua pertinência, além de ser divertido para quem o observa de fora. O sertanejo vive atualmente seus dias de esplendor, como o axé viveu algum tempo atrás ou o iê-iê-iê há 50 anos. A febre vai passar, como sempre passa. E a música segue em frente, com novas e imprevisíveis mutações.


Tony Goes

tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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