Tony Goes

Das comédias ao terror, o racismo é o assunto do momento

Cena de 'Corra!', filme de Jordan Peele (Divulgação)
Cena de 'Corra!', filme de Jordan Peele - (Divulgação)


Corra!” é um filme surpreendente. Começa parecendo um remake do clássico “Adivinhe Quem Vem para Jantar”, de 1967, em que uma moça branca apresentava o namorado negro aos pais conservadores.
 
Mas em “Corra!” a comédia de costumes aos poucos dá lugar ao terror, a medida em que o protagonista percebe que há algo ainda pior na casa de sua amada do que as perguntas indiscretas que o fazem se sentir deslocado.
 
O filme também surpreendeu nas bilheterias americanas, mesmo sem ter astros famosos nem fazer parte de uma franquia. Já rendeu mais de 200 milhões de dólares, pagando muitas vezes seu baixo orçamento.
 
Dear White People” (literalmente, “cara gente branca”) também vem dando o que falar. A série da Netflix é baseada no longa do mesmo nome, de 2014, e conta como um grupo de alunos negros lida com o racismo nem sempre velado que permeia a faculdade onde estudam, predominantemente branca.

O elenco da série 'Dear White People'
O elenco da série 'Dear White People' - Reprodução

É uma comédia, mas não faltam momentos dramáticos. Como a em que um policial branco aponta uma arma para um jovem negro no meio de uma festa, porque este discutia acaloradamente com um colega branco. Por que só o negro quase foi morto, quando a discussão envolvia os dois?
 
“Corra!” (que já está em cartaz no Brasil) e “Dear White People” são só dois exemplos de um movimento que está varrendo todo a indústria do entretenimento dos Estados Unidos: histórias escritas, dirigidas e protagonizadas por negros e que tocam fundo na ferida do racismo, mas que acabam interessando a todas as plateias.
 
Esta onda até já ganhou um Oscar com “Moonlight - Sob a Luz do Luar”, sagrado melhor filme de 2016 na premiação de fevereiro passado. E tem muitos outros produtos de sucesso, como as sitcoms “Atlanta” (exibida por aqui no canal Fox Premium) e “Black-ish” (Sony).

Cena do filme 'Moonlight'
Cena do filme 'Moonlight' - Reprodução

É ótimo que um tema tão espinhoso como os conflitos raciais finalmente tenha chegado ao circuito “mainstream”. Para fazer um trocadilho infame, racismo “is the new black”.
 
Mas claro que as polêmicas vêm a tiracolo. Tem gente (branca, é claro) que acha que os personagens de “Dear White People” são racistas às avessas. Também tem gente (branca, é óbvio) que se incomodou com o final de “Corra!” - um desfecho até convencional para um filme de terror, se todo o elenco fosse branco.
 
A onda já chegou ao Brasil, embora não com a mesma intensidade. Na Globo, tivemos a incompreendida série “Sexo e as Nega” (2014), e agora temos “Mr. Brau”, já em sua terceira temporada e com pelo menos mais uma pela frente.
 
Mas ainda é pouco. Chega a ser escandalosa a branquitude das novelas em geral, onde os atores negros costumam ser confinados a um núcleo e olhe lá.
 
Já os roteiristas e diretores negros ainda são pouquíssimos, embora haja toda uma geração se preparando nos bastidores. Quando ela entrar em cena, aí sim, poderemos ter algo parecido ao que os americanos já têm: um debate sério sobre raça e sociedade, disfarçado de entretenimento popular.


Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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