Tony Goes

Estreia de 'A Força do Querer' pareceu colagem de novelas diferentes

A Globo não brinca em serviço. Depois de uma série de decepções na faixa mais nobre de sua programação, a emissora escalou um elenco recheado de estrelas para "A Força do Querer", sua novela das 21 horas que estreou nesta segunda (3).

O folhetim assinado por Glória Perez (e só por ela, que se recusa a trabalhar com colaboradores) se dá ao luxo de ter quase uma dúzia de protagonistas diferentes, divididos entre o Rio de Janeiro e Belém do Pará.

Não há atores novatos entre os personagens principais: só figuras carimbadas, todas conhecidíssimas pelo público. Até Maria Fernanda Cândido e Dan Stulbach, afastados há anos do canal, foram trazidos de volta. O resultado é um festival de caras manjadas, que remetem a dezenas de produções anteriores.

Para complicar, as muitas histórias paralelas ainda não compõem um todo coerente. Há uma mulher que enveredou pelo crime por amor (Juliana Paes) e uma adepta do sereísmo (Ísis Valverde). Também há uma jogadora inveterada (Lília Cabral) que vai se arruinar nas mesas de pôquer e uma adolescente transgênero (Carol Duarte, uma rara principiante), dois lances de marketing social típicos da autora.

Pelo menos em seu primeiro capítulo, "A Força do Querer" não foi uma novela só. Foram várias, misturando romance, humor e drama numa soma menor do que as partes. O próprio estilo de Glória Perez, despudoradamente exagerado, ainda não se fez sentir.

Mas o toque exótico já estava lá: não faltou um pajé amazônico, nem uma sequência de sonho que mais parecia um delírio provocado pelo santo daime.

Ainda bem que a primeira fase, essa praga das novelas contemporâneas, durou apenas um bloco e meio. Mas talvez os espectadores nem tenham percebido a passagem do tempo, dado que muitos dos atores não envelheceram entre um momento e outro.

Glória Perez é natural do Acre, e já ambientou uma de suas minisséries (justamente chamada "Amazônia") em sua região natal. Agora ela troca os países orientais que serviram de cenário para suas últimas tramas por um território que lhe é mais familiar.

Mas continua fiel a uma de suas marcas registradas: os elencos gigantescos, que se espalham por núcleos caudalosos feito igarapés de um afluente do Solimões.

Será que todas essas correntes irão se juntar numa só direção? É cedo para dizer. Por enquanto, "A Força do Querer" ainda carece de foco e personalidade. Atirando para tantos lados ao mesmo tempo, é uma pororoca quase tão genérica quanto seu título.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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