Tony Goes

Explicitamente religiosa, 'O Rico e Lázaro' tem começo espetacular

"O Rico e Lázaro", a quarta novela bíblica da Record, estreou com duas grandes qualidades.

Os dois primeiros capítulos — exibidos nesta segunda (13) e terça (14) — foram de encher os olhos. É nítido o avanço da emissora nesse tipo de produção. Cenários, figurinos e efeitos especiais estão a léguas do que eram em "Os Dez Mandamentos" (2015) e a anos-luz das primeiras minisséries do gênero.

A outra qualidade é que "O Rico e Lázaro" não esconde a que veio. Trata-se de um programa com uma missão: aumentar o rebanho das igrejas evangélicas. Especialmente, é claro, o da Universal do Reino de Deus, a controladora da Record.

Não tem uma trama sutil, nem faz propaganda subliminar. É explicitamente catequizadora: a toda hora alguém comenta que os hebreus estão sendo punidos por terem se afastado de Deus. Exatamente como os pastores costumam ameaçar seus fiéis desgarrados.

Dudu Azevedo é o protagonista de 'O Rico e o Lázaro', novela da Record
Dudu Azevedo é o protagonista de 'O Rico e o Lázaro', novela da Record - Reprodução

O Rico e Lázaro também é o primeiro folhetim bíblico centrado em figuras que não estão no livro sagrado. A autora Paula Richard tomou por base uma parábola do Novo Testamento, que fala da vida após a morte de dois homens: o rico vai para o inferno, o pobre, para o céu. E criou todo um contexto para os dois, situando-os na Jerusalém do século 7 antes de Cristo, quando a cidade foi tomada pelos babilônios.

Misturando elementos e personagens de quatro livros diferentes do Antigo Testamento, Richard também acrescentou à receita um triângulo amoroso digno das novelas das seis: dois amigos crescem juntos, brincando com a menina que irão disputar quando crescerem.

Qual deles se tornará rico, qual continuará pobre? Isto só será revelado na segunda fase. Até a cena que abriu a trama —uma inquietante sequência passada no inferno— se esforçou para manter o segredo, não mostrando o rosto do ator que a protagonizou.

Actors perform during the shooting of "O Rico e Lazaro" (The Rich Man and Lazarus) soap opera at the studios of Record TV in Rio de Janeiro, Brazil on February 3, 2017. Nebuchadnezzar II is about to b
Cena de 'O Rico e Lázaro', novela da Record - TASSO MARCELO; AFP

Não foi o único momento espetacular da estreia. Outros vieram, como a cerimônia de coroação de Nabucodonosor, num templo sombrio que lembra a Casa do Preto e Branco da sexta temporada de "Game of Thrones".


Ou o embate entre babilônios e egípcios: simplesmente a melhor cena de batalha de todos os tempos do audiovisual brasileiro.

Palmas também para os diálogos, coloquiais na medida do possível. Pena que alguns atores ainda exagerem na pompa e circunstância. Outros — especialmente os mais jovens— atuam como se estivessem numa versão oriental de "Malhação" (Globo).

Com tanta pregação, "O Rico e Lázaro" dificilmente irá seduzir o espectador interessado apenas em romance e aventura. Mas público, a novela já mostrou que tem. Os primeiros números do Ibope — respeitáveis 15 pontos de média na Grande São Paulo (cada ponto equivale a 199,3 mil espectadores)— indicam que o filão bíblico da Record está longe de se esgotar.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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