Tony Goes

Acidentes na Sapucaí e blocos de SP marcam inflexão no Carnaval

O concurso de fantasias do Hotel Glória, no Rio de Janeiro, realizado durante 34 anos seguidos até 2008, era um dos pontos altos do Carnaval. A TV Manchete transmitia o evento ao vivo. Os vencedores nas categorias "luxo" e "originalidade" estampavam capas de revistas como "Fatos e Fotos".

Nada disso existe mais: o concurso, a TV, a revista. O próprio hotel Glória segue fechado e em obras, depois de ter passado pelas mãos de Eike Batista. O Carnaval mudou, e a vida seguiu em frente.

Apesar de deslumbrantes e com nomes divertidos ("Aleluia, Aleluia - Portugal, Esplendor de uma Era", que tal?), as fantasias eram criticadas por serem pesadíssimas. Os candidatos ainda mexiam as mãozinhas diante do júri para fingir que brincavam o Carnaval, mas era óbvio que estavam sendo esmagados pelas toneladas de plumas e adereços.

Esses concursos acabaram se tornando obsoletos, vitimados pelo próprio gigantismo e pelo desinteresse crescente do público. Sei não, mas temo que esteja acontecendo a mesma coisa com as escolas de samba.

Faz tempo que elas se tornaram um grande negócio, movimentando milhões e atraindo o patrocínio de multinacionais e até de governos estrangeiros. Mas nem a entrada de tanto dinheiro conseguiu profissionalizar os desfiles, onde reina o caos na concentração e na dispersão - e agora também na passarela.

Os acidentes que marcaram as duas noites em que as escolas do Grupo Especial ocuparam o Sambódromo carioca não foram, desculpe, acidentais. São sintomas de que algo está muito errado, pois é inadmissível que uma festa termine com um saldo de ao menos 30 feridos, alguns em estado grave.

Durante décadas a fio, os desfiles das escolas de samba foram a principal atração do Carnaval brasileiro. Mas este ano registrou uma ligeira queda nas audiências da TV - sinal de que o telespectador finalmente está se cansando do espetáculo, que muda todo ano para continuar sempre igual?

Enquanto isto, o Carnaval de rua se consolida por todo o Sudeste (no Nordeste ele já predomina há muito tempo). A grande surpresa de 2017 foi a explosão dos blocos paulistanos. Agremiações como a "Domingo Ela Não Vai", criada há menos de dois anos, arrastaram multidões pelas ruas da cidade.

Talvez seja um ciclo se repetindo. Depois de crescer demais e encher os bolsos, o Carnaval retorna à baderna original. Assim como os blocos atuais, as escolas também tiveram geração espontânea: em seus primórdios, um século atrás, eram cordões que saíam meio que de qualquer jeito.

Os blocos de São Paulo já estão passando por este processo. Fazem propaganda de marcas, garantem exclusividades, daqui a pouco talvez estejam vendendo ingressos e abadás.

Mas 2017 foi um ponto de inflexão. De um lado, vemos as escolas tradicionais tropeçando, literalmente, em seus delírios de grandeza. Do outro, os blocos reclamando o protagonismo da folia para o cidadão comum.

Vamos ver se a tendência se consolida no ano que vem.


Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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