Tony Goes

Será que 'La La Land' vai trazer de volta os filmes musicais?

"Odeio musicais. Não tem nada mais ridículo do que um sujeito que começa a cantar de repente, no meio da rua, e aí vem um monte de gente dançar com ele. É totalmente irreal!".

Se você não compartilha dessa opinião, certamente conhece alguém que o faz. A aversão aos musicais é disseminada na nossa cultura, porque eles seriam "irreais". O curioso é quem diz isso geralmente adora coisas tão realistas como, por exemplo, lutas com sabres de luz.

Nem sempre foi assim, claro. Os musicais foram o gênero mais popular do cinema durante décadas. Até que, em meados dos anos 1960, uma série de fracassos retumbantes fez o estilo entrar na geladeira, da qual ele só sai de vez em quando.

Em plena era dos Beatles e da psicodelia, Hollywood insistia em produzir caretices como "Alô, Dolly!" ou "Canção da Noruega", num total descompasso com o espírito rebelde daqueles tempos.

Os filmes musicais envelheceram da noite para o dia. Só não foram extintos de vez porque emplacaram três fenômenos na década seguinte: "Cabaret" (1972), premiado com oito Oscars; e os dois longas que lançaram John Travolta ao estrelato, "Os Embalos de Sábado à Noite" (1977) e "Grease: Nos Tempos da Brilhantina" (1978).

O curioso é que, enquanto desapareciam das telas, os musicais floresciam no teatro. A Broadway continuou batendo recordes de público e exportando seus maiores êxitos para o resto do mundo (inclusive o Brasil).

Até que, em 2001, um filme foi saudado como a ressurreição do gênero: "Moulin Rouge", do diretor australiano Baz Luhrmann. Foi tão bem nas bilheterias e nas premiações que a crítica logo avisou: vem mais por aí.

Um ano depois, o triunfo de "Chicago" nos Oscars pareceu confirmar a profecia. E os grandes estúdios saíram filmando um musical atrás do outro. Só que os eventuais "hits", como "Mamma Mia!" (2008), não compensaram os inúmeros "flops", como "O Fantasma da Ópera" (2004) ou "Nine" (2009).

Agora estamos assistindo a mais um renascimento do cinema musical com "La La Land", que venceu sete Globos de Ouro e é o favorito disparado ao próximo Oscar. A façanha é ainda mais admirável se lembrarmos que é o primeiro exemplar totalmente original em muitos anos, sem músicas conhecidas nem versão prévia no teatro.

O problema é que "La La Land" está chegando ao Brasil embrulhado em tanto "hype" que a decepção é inevitável. Muita gente que compareceu às pré-estreias vem declarando nas redes sociais que "esperava mais" (o filme entra em cartaz na quinta, 19).

Se nem os aficionados estão se rendendo a "La La Land", é bastante improvável que o filme conquiste novos fãs para o gênero. E, assim, o cinema musical continuará sendo uma exceção. Um pássaro raro, que de vez em quando pousa nas salas. Faz barulho, arranca aplausos, bate asas e voa para longe, sem botar ovos.

Emma Stone (centro) em cena de "La La Land"
Emma Stone (centro) em cena de "La La Land" - Divulgação


Tony Goes

tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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