Tony Goes

Mary Tyler Moore foi o primeiro ícone feminista da televisão

Dá para acompanhar a evolução do papel da mulher na sociedade americana apenas assistindo às sitcoms mais famosas de cada década do final do século passado.

Em "I Love Lucy", dos anos 1950, a protagonista é uma dona de casa louca para trabalhar fora. Ela tenta de tudo: desde embalar chocolates numa fábrica até se vestir de marciana para promover um filme de ficção científica. E sempre fracassa redondamente.

Nos anos 1960, as mulheres da vida real já estavam colocando as manguinhas (e as pernas) de fora. E o que foi que as sitcoms fizeram? Aprisionaram-nas.

Em "A Feiticeira", a bruxa Samantha é obrigada pelo marido normal não só a esconder seus poderes mágicos, como também a não usá-los de jeito nenhum. Nem limpar a casa com eles a coitada pode.

"Jeannie É um Gênio" é ainda mais cruel. A personagem-título, também poderosíssima, é mantida presa numa garrafa, sob o comando de um homem a quem ela chama de amo.

Essas metáforas óbvias do medo que o homem sente da mulher não resistiram ao avanço do feminismo. No começo da década seguinte, a TV americana precisou refletir as conquistas feministas em seus programas.

E nenhuma série foi mais emblemática que "The Mary Tyler Moore Show". Pela primeira vez na história, a protagonista de uma sitcom era uma mulher solteira, que sustentava a si mesma e tinha vida sexual ativa.



Mary Tyler Moore
A atriz Mary Tyler Moore, em foto de 2012 - Vince Bucci; AP


Depois de uma desilusão amorosa, Mary Richards se mudava para a gélida Minneapolis, onde encontrava um novo emprego e novos amigos. Mas não um novo amor: ao longo de sete temporadas, a personagem saiu com diversos homens diferentes e namorou alguns, mas jamais se casou. E não estava preocupada com isto.

Também brigou pela equiparação salarial (não conseguiu), enfrentou assédios no trabalho e se manteve orgulhosamente independente. Tudo isto sem jamais levantar bandeiras, e — o que é melhor — com um dos textos mais engraçados de todos os tempos.

"The Mary Tyler Moore Show" foi um campeão de audiência nos EUA (por aqui, exibido pela Globo às tardes, nunca fez muito sucesso). Ganhou 29 prêmios Emmy, gerou vários "spinoffs" para seus personagens coadjuvantes e mudou para sempre os rumos da televisão.

Tanto a Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) de "Sex and the City" quanto a Liz Lemon (Tina Fey) de "30 Rock" são descendentes diretas de Mary Richards: mulheres solteiras que buscam seus próprios caminhos na carreira e no amor, com diferentes graus de sucesso.

Mary Tyler Moore morreu nesta quarta-feira (25), aos 80 anos de idade. Mas seu legado persiste. Foi uma das figuras mais importantes da história da TV americana e, por tabela, influenciou o mundo inteiro.


Tony Goes

tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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