Tony Goes

Confortável com a própria sexualidade, George Michael foi o anti-Morrissey

Prazer. Tentei condensar a carreira de George Michael numa única palavra, e foi nesta que eu cheguei. Dos primeiros singles com o Wham! ao último álbum, "Symphonica", o cantor e compositor morto neste dia de Natal exalava prazer. De ir a festas, de namorar, de estar vivo.

Não que sua vida tenha sido só alegrias. George Michael sofreu pacas, especialmente quando perdeu aquele que parece ter sido o grande amor de sua vida: o estilista brasileiro Anselmo Feleppa.

Os dois se conheceram em 1991, quando Michael –então no auge do sucesso– veio pela primeira vez ao Brasil, para se apresentar no Rock in Rio 2. Feleppa já era seu fã, e foi ao hotel onde o ídolo estava hospedado para tietá-lo. Acabaram vivendo um romance intenso que durou apenas dois anos.


A imprensa só publicou algo a respeito tempos depois da morte de Feleppa em 1993, de complicações decorrentes da AIDS. Mesmo assim, Michael só se assumiu gay em 1998, depois de ter sido flagrado cometendo atos obscenos num banheiro em Los Angeles. Àquela altura, não foi surpresa para absolutamente ninguém.

Porque, ao longo dos anos, George Michael cristalizou a imagem de alguém bastante confortável com a própria sexualidade. Parecia um poço de autoestima, a ponto de batizar o primeiro álbum do Wham! com o despudorado título de "Fantastic".

Apesar de ainda aparecer perseguindo meninas em seus clipes, George Michael não tinha nada de angustiado. Nesse ponto era o antípoda de outro contemporâneo seu, Morrissey.

Enquanto que o vocalista dos Smiths fazia letras encucadas sobre amores platônicos e vivia ameaçando sair do armário sem jamais fazê-lo de fato, Michael deixava claríssimo em suas canções que mantinha uma vida sexual para lá de ativa.

Mas a morte de Feleppa parece tê-lo tirado do rumo. As mais de duas décadas que se seguiram a este trauma foram pontuadas de incidentes. Michael foi preso por infrações de trânsito e porte de drogas (inclusive crack), e começou a ter misteriosos problemas de saúde. Os discos e as turnês tornaram-se raros.

O golden boy dos anos 1980 (ele parecia tingido de spray dourado) foi ficando gordo e arredio. Mas estava preparando um retorno à cena, mais um: há poucos dias, anunciou que estava gravando um novo álbum.

Tomara que algumas faixas já estejam prontas e que vejam logo a luz do dia. Assim teremos mais dados para saber se a persona alegre e desencanada que George Michael encarnou durante toda sua carreira era mesmo para valer, ou apenas uma máscara.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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